A Extraordinária Vida do Ordinário Maicon
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FACULDADE CÁSPER LÍBERO Coordenadoria de Pesquisa e Pós-Graduação Programa de Pós-Graduação Stricto Sensu em Comunicação Narrativas de Ficção – Prof. Dr. Dimas Antonio Kunsch
A Extraordinária Vida do Ordinário Maicon
Pedro Luiz de Oliveira Costa Bisneto RA. 07000979 pbisneto@uol.com.br 2007
Conteúdo |
Introdução
Sendo este trabalho destinado ao meu professor-orientador, não preciso explicar os pontos de minha pesquisa de mestrado que procurarei vincular ao mesmo. Basta-me explicar o porquê da escolha dos textos de Eliane Brum para a confecção deste paper. Mas qual a relação entre os textos de Brum com a pesquisa deste orientando? Embora, a princípio, os dois pareçam não ter vínculo algum, na verdade, existe sim um forte vínculo entre ambos, para que o meu querido orientador possa compreendê-lo, vale aqui fazer de maneira breve um registro de como nasceu o meu projeto de pesquisa, de uma maneira que ainda não tinha feito anteriormente. Tenho certeza de que este texto será muito importante, tanto para que o Professor entenda melhor os objetivos deste paper, quanto o contexto e o objetivo maior que, tenho certeza ainda me ajudará muito a cumprir, a dissertação final deste curso de mestrado.
A origem do meu projeto
O meu projeto de pesquisa nasceu quando eu era professor do UniFIAMFAAM, vinculado ao curso de Comunicação Social, trabalhando no Campus Morumbi em São Paulo. Sendo um professor mensalista, as minhas obrigações iam além das aulas de computação gráfica, produção editorial e webdesign, que eram as minhas especialidades. Eu completava a carga horária semanal de quarenta horas desenvolvendo projetos de websites e outros produtos gráficos para a instituição. Em 2005, a universidade montou uma diretoria de pesquisa e todos os professores mensalistas, como eu, deveriam desenvolver projetos de estudo, vinculados às linhas de pesquisa que foram estabelecidas para esse fim. Inicialmente, isto foi um problema para mim, pois todas as linhas eram ligadas ao jornalismo, sendo que a minha formação estava atrelada à habilitação de produção editorial e Internet. A grande questão era: o que pesquisar? Partindo do fato de que a minha formação nada tinha a ver com o jornalismo, percebi que esse era então o caminho da pesquisa: aprender o que vem a ser jornalismo. Esta talvez seja a hipótese inicial, o objetivo geral do projeto de pesquisa que desenvolvi, aprender jornalismo. Aprender tudo sobre jornalismo, desde os seus primórdios até a atualidade, onde poderia então relacionar o tema com a minha área, relacionando-o com um cenário que me é mais familiar, onde o jornalismo tem o seu espaço também através da Internet. O projeto era amplo sim, pois ele não foi concebido com o objetivo de se criar uma dissertação de mestrado, o objetivo das pesquisas dentro da diretoria que estava inserida, incluía o fomento de atividades de iniciação científica, monitoria, publicações e seminários entre outras finalidades. Apesar dele ter nascido por uma imposição da instituição em que trabalhava, a partir do momento em que eu comecei a desenvolver o tema, passei a me envolver com ele, fiz algumas leituras, relacionei com outras que fizera, montei uma bibliografia, busquei embasamentos, até chegar na versão que foi a apresentada à Cásper Líbero pela ocasião do meu ingresso no Mestrado. Vale dizer que pude contar com a ajuda de vários colegas nessa fase, professores que me ajudaram a desenvolvê-lo, foram meus orientadores na ocasião, e que merecem o registro: Profª. Drª. Mônica Martinez, Profª Drª.Mirtes Torres, e o Prof. Dr. Dilvo Peruzzo, responsável pela diretoria de pesquisa. A linha de pesquisa era New Journalism, mantida pelo Prof. Dr. Cláudio Tognoli. E na atualidade, já dentro do curso de mestrado da Cásper Líbero, vale destacar as dicas imprescindíveis do Prof. Dr. Laan Mendes de Barros e a orientação do Prof. Dr. Dimas Antonio Künsch.
– Professor, conto com o Senhor.
O texto a seguir
A relação do texto a seguir com o meu projeto vai ao encontro do que foi colocado acima: aprender o que é jornalismo. Como um aprendiz de jornalista, entendo que para um dia sê-lo, uma coisa se faz necessária: escrever. Inspirado pelos textos da jornalista Eliane Brum, é isto que tentarei fazer a seguir: escrever uma pequena narrativa da história de vida de uma pessoa comum, alguém que muitos diriam não apresentar nenhum motivo especial para que se escrevesse algo a respeito, e que nem por isso deixa de ter uma história interessante, extraordinária. Nesse sentido, a narrativa a seguir também segue a linha do filme-documentário “Edifico Máster”, que nos mostrou um pouco da história de vida de várias pessoas anônimas. A narrativa parte do colocado pela jornalista Eliane Brum: ter um olhar aguçado para perceber o extraordinário dentro do ordinário[1], o que nos remete diretamente ao título da história que narrarei, a história de Maicon. O texto a seguir poderia ser classificado de várias formas, uma mini-biografia, jornalismo literário, jornalismo diversional ou jornalismo em profundidade. Eu diria que se trata de uma matéria com foco no humano, escrita em estilo literário. Independente de qualquer classificação, o que importa antes de tudo é a história a ser contada. A metodologia para o desenvolvimento desde paper foi muito simples, entrevistei Maicon por cerca de uma hora[2], onde ele contou a sua história de vida que, no papel, rendeu uma narrativa de 14.129 caracteres com espaço. O objetivo de escrever é o vínculo deste paper com a minha dissertação, e não obstante, também outros textos que desenvolvi durante os estudos do mestrado, diversas leituras complementares e, até mesmo, o meu blog[3], apesar do sensacionalismo, iniciativas objetivadas à busca do entendimento das varias facetas do jornalismo, que vão além dos objetivos propostos na minha dissertação de mestrado.
A extraordinária vida do ordinário Maicon
A história a seguir narra a vida de uma pessoa que, como a maioria de todos nós, é anônima. Uma história recheada de elementos da vida cotidiana, elementos que são comuns e familiares a todos nós, e que nos fazem perceber como cada um, como cada ser humano, traz consigo aquela inexplicável e extraordinária maravilha que é o dom maior que todos nós possuímos, o dom da vida. Quem é Maicon, o que ele faz, onde vive? É difícil responder, Maicon é o típico ser humano nômade, está sempre em algum lugar diferente, fazendo algo diferente, com pessoas diferentes. Sua vida foi sempre assim, de lá pra cá, de cá pra lá, desde que sua mãe – uma hippie, como ele mesmo conta – saiu de São Paulo para ir morar em Belém do Pará, a sua cidade natal, onde tudo começou, à beira do Rio Tapajós. Foi lá que ela conheceu o seu pai, um garimpeiro, com quem se casou e teve dois filhos: Maicon, o caçula, e uma menina. Esposa e filhos conviveram muito pouco com o pai, ele, na maior parte do tempo se encontrava longe de casa, em algum lugar no meio da selva amazônica, cavando por ouro. Quando achava quantia suficiente do valioso minério para pagar a viagem ao garimpo, algo que só acontecia em intervalos de anos, a família pegava um avião em Santarém que os levava ao meio da selva, e lá mesmo passava algum tempo junta. E foi numa dessas viagens que Maicon e sua mãe se depararam com um dos terríveis males da vida selvagem, a malária. Infectados ambos, a má sorte da mãe foi ainda mais cruel, além da malária contraiu a fatal hepatite preta, morrendo em poucos dias ao lado do filho num hospital em Santarém. Embora gravemente efêrmo, Maicon sobreviveu, mas definitivamente o rumo de sua vida começava a mudar pra sempre, aos oito anos de idade.
Sem condições psicológicas de cuidar dos filhos, agora órfãos de mãe, o pai de Maicon enterrou a esposa e voltou ao garimpo. Além de mãe, Maicon e sua irmã então, passaram a ser órfãos de pai também, pois nunca mais o encontraram no decorrer de suas vidas. Foram acolhidos por parentes dele, Maicon por uma madrinha de batismo que o encontrara ainda no hospital quando ele se recuperava da malária, e sua irmã por uma tia. Maicon passou a viver em cima de um açougue no centro comercial de Santarém, onde trabalhava para ajudar sua nova “mãe de criação” – sua primeira profissão: ajudante de açougueiro. No tempo livre, brincava com os filhos dela, crianças como ele, seus novos irmãos.
Cerca de um ano depois, já feliz e readaptado à nova vida, num belo dia de sol, caminhava na rua quando ouviu uma voz chamando seu nome: “Maicon” – era um tio seu que vinha para buscá-los, ele e sua irmã, para morarem com parentes de sua falecida mãe em São Paulo. O tio estava há dias procurando pelo pequeno Maicon que há anos não via, que ninguém sabia onde estava, não se sabia para onde teria ido quando saiu do hospital, que sua madrinha o adotara, e já era dado como desaparecido pela família. Antes, talvez, não tivesse sido encontrado, afinal já tinha o carinho de sua madrinha, a companhia dos novos irmãos, em suma, já tinha uma nova família. Depois de deixarem Santarém, Maicon e sua irmã nunca mais encontraram um lar amoroso. Os órfãos eram vistos como um estorvo para a família, representavam apenas mais bocas para se alimentar. Sua irmã foi com o tio para a grande capital e Maicon, a muito contragosto, acabou na pequena cidade de Reginópolis, sertão paulista – mais de quatrocentos quilômetros de distância de sua irmã – onde outra tia o recebeu com muito mal trato. Tinha que disputar a comida com seus primos, brigando por sobras e com a tia que escondia os alimentos. Fome era o prato que sobrava na mesa para Maicon, de forma que logo cedo foi obrigado a trabalhar por seu próprio pão, antes de completar onze anos já estava na lida. Conseguiu um bico de ajudante numa fábrica de tratores da região, onde recebia café e almoço, além de faturar “algum” com gorjetas. Nos fins-de-semana vendia sorvete na cidade, às vezes, nem voltava pra casa, dormindo em qualquer lugar, na praça, no mato, longe da frieza de sua tia. Cansado dos mal-tratos dela, conseguiu um cantinho na casa de sua avó, que lhe permitiu construir um pequeno barraco de madeira adjacente à sua moradia. Foi onde, finalmente, Maicon conseguiu um pouco de sossego, onde nas noites frias se aquecia com um pouco de madeira e carvão que queimava num velho tambor de óleo. Solidão? Jamais. Se a infância e a vida de Maicon são marcas de dificuldades e do abandono da família, isso jamais lhe afetou. Sem parentes amorosos, cercou-se de amigos, criou sua própria família, deixou a solidão passar distante de sua porta. Sempre foi comunicativo, carismático, bem humorado, dono de em espírito empreendedor e prestativo, de forma que logo já era conhecido por todos na cidade, na escola, era amigo de todos os colegas.
Na adolescência, Maicon já havia trabalhado em diversas firmas, lojas e bares da cidade, além de algumas fazendas da região, realizava qualquer tipo de serviço manual, de modo que ainda criança, já conquistara a sua independência, já se sustentava sozinho. Além do trabalho, brincava no mato, praticava esportes, nadava no rio da cidade e, como não poderia deixar de ser no país do futebol, adorava jogar bola, era forte, já “carregava piano” com catorze anos. Sempre gostou de música também, reggae e black são seus estilos prediletos. Antes de terminar o ginásio, Maicon já se mudara da casa de sua avó, morava no centro da cidade com alguns amigos, numa casa onde organizava os bailes da escola. Foi nessa época que sua virgindade também passou a ser parte do passado. Até completar dezesseis anos, Maicon já tinha algumas ex-namoradas, a bola e o estilingue ficavam pra traz, o interesse agora era a vida à frente.
Veio para São Paulo e reencontrou sua irmã que já se casara. Para a cidade grande trouxe duas coisas que já conquistara em sua vida: seu carisma e o espírito empreendedor, em posse disso, trilhar seu caminho na metrópole paulistana não lhe foi muito difícil, mas teve obstáculos para serem driblados. Num colégio interno, onde estudava e trabalhava – era auxiliar de cozinha e cultivava uma pequena horta de verduras – completou o colegial e também a sua maioridade legal. A maioridade trouxe algo a mais para Maicon, a liberdade. Em posse dela, conseguiu um emprego numa grande firma multinacional, a Leroy Merlin, mudou-se da casa de sua irmã e foi morar sozinho no Jardim Bonfiglinoli, à beira da rodovia Raposo Tavares, bairro que até hoje reside, embora que numa dúzia de casas diferentes, ora sozinho, ora dividindo a moradia com amigos da vizinhança. Sem rio para nadar, encontrou nas artes marciais um novo esporte para praticar, para aliviar o stress da big city, dedicou-se à arte do Morganti.
Trabalhou quatro anos na Leroy, de simples ajudante ascendeu a chefe-encarregado de setor – de “peão” à “patrão” – aprendeu de tudo um pouco, de operar empilhadeiras ao uso do computador, além de lidar com toda burocracia de uma grande empresa. Foi na Leroy que Maicon reencontrou um velho amigo de Reginópolis: Alê, o surfista, que lhe apresentou aquela que seria a sua nova paixão, o surf. Após algumas viagens com o velho amigo, Maicon já se tornara um apaixonado pela prática e o espírito de vida dos surfistas, já tinha sua prancha e todo equipamento necessário para prática do esporte, além do visual característico da tribo do surf, tatoos, bermudas e óculos escuros. Sempre que tinha uma folga ia para a praia com os trutas[4] curtir as ondas. Por coincidência, Alê era meu amigo também, um antigo companheiro das ondas, e foi justamente numa dessas surf trips[5] que fizemos ao Guarujá, que eu conheci Maicon, há quatro anos atrás, quando ele tinha 21 anos. De lá para cá fizemos várias viagens e, como não poderia deixar de ser com alguém que se dispõe a ser amigo de todos que cruzam seu caminho, desenvolvemos um forte laço de amizade. Foi assim que eu aos poucos fui conhecendo a inigualável personalidade e sua fantástica história que hoje tento, de forma resumida, registrar nessas palavras, com a humildade de saber que seria necessário ao registro dela, um extenso livro para detalhá-la com sua verdadeira riqueza, mesmo se tratando de um jovem com uma vida inteira pela frente. Como um amigo, posso acrescentar algumas características a esta figura. Acima de tudo, Maicon é uma pessoa muito humilde, trata todos com muito respeito e igualdade, é muito tranqüilo e receptivo, adora um bom papo e é um excelente contador de histórias, daí também o desejo de se registrar a sua. É apaixonado por tudo que faz, busca cumprir com perfeição todas as tarefas que se propõe, é extremamente profissional. Está sempre disposto a ajudar o próximo, com um pouco de inocência até, como diriam alguns. Vi com meus próprios olhos, ao meio da multidão, numa praia apenas iluminada pelos fogos de artifício da noite de Reveillon, salvar uma menina da morte, desacordada em coma alcoólico, abandonada, à mercê da sorte. Enquanto a multidão sequer percebia o que se passava, lá estava Maicon carregando a guria nos ombros em busca de ajuda num autêntico resgate. Ele é assim, sempre com a mão estendida, pronto para ajudar, tem um espírito irrequieto, sempre agitando algo novo. Quem vai à sua casa, logo percebe isso, o bom anfitrião, os amigos batendo à porta. Além do calor humano, tem no seu canto poucas coisas, a cozinha – indispensável – alguns armários, enfeites, roupas, uma cama e um computador para ouvir música, assistir filmes e entrar no Orkut, nada que dê muito trabalho para se mudar. O que mais dizer sobre ele? É deixar sua história falar por si mesma.
Sem espaço mais para crescer na Leroy, acabou afastado da empresa, aproveitou a boa indenização que recebeu para investir em diversos cursos, tais como de gastronomia, someliê[6] e gerenciamento de bares, restaurantes e hotéis. Conseguiu alguns trabalhos temporários com organização de eventos, festas e buffets, até mesmo como segurança, de bar em bar e festa em festa, conseguiu um bom emprego de comim[7] num famoso Sushi-Bar na zona sul da cidade. Como voltava tarde da noite do serviço, comprou uma moto para cumprir o trajeto casa-trabalho, foi quando se deparou com um dos grandes males da cidade grande: a violência do trânsito. Trafegando com sua moto ao farol verde, foi abalroado por um automóvel que se esvaiu pela cidade, em frente ao Shopping Iguatemi, esmagando-lhe a coxa esquerda. Acordou num leito de hospital com muita dor, mas feliz por estar vivo. Foi operado, o osso da perna reconstituído com titânio, foram meses de recuperação no hospital, onde recebia poucas visitas – algumas minhas, quando até assistimos pela TV o Corinthians ser campeão em 2005, outras de sua irmã – e mais meses e meses fazendo fisioterapia, tomando remédios que lhe custaram toda a poupança, andando de muletas, morando na casa de sua tia que o amparou, a mesma que acolhera sua irmã anos antes. O tempo parado serviu para repensar a sua vida, aproveitou o chá de cama para a leitura de livros sobre a filosofia de vida oriental que sempre o interessou, sentia saudades do mar e percebeu que ali estava o seu destino, viver próximo as ondas, ao surf, onde encontraria paz para o corpo e o espírito.
O tempo passou e Maicon se recuperou completamente, vendeu o que restava da moto, voltou ao trabalho no Sushi-Bar, alugou um novo cantinho, voltou ao surf e até mesmo ao Morganti. Pouco tempo depois, se transferiu para outro bar, onde foi gerente. Sua personalidade muito amigável não combinava muito com a postura mais fria necessária a tal profissional, de modo que não se identificou com a nova profissão, demitiu-se e foi buscar novas alternativas. Enquanto não encontrava algo “novo” para fazer, fez o que sempre fizera, vários bicos. Continuou trabalhando com festas buffets, onde fazia inclusive, pirofagias circenses. Até mesmo um filme de cinema ajudou a produzir. Com um celular na mão, fez vários contatos, acabou reencontrando um velho amigo, músico, que tocava numa banda de reggae, este, por sua vez, lhe apresentou para outro amigo, que era DJ. O DJ convidou Maicon pra trabalhar na produção de eventos, de festas rave. Numa dessas festas, fez novos contatos que o levaram para um novo ramo: o mundo da moda. Abriu uma firma, a “Progresso Modas” e passou a revender roupas, estilo jovem, jeans e surfware, em diferentes lojas e cidades, algo muito fácil para alguém simpático e comunicativo como Maicon, trabalhando por conta própria e lidando diretamente com o público. Tornou-se um vendedor e fornecedor ambulante, estilo caixeiro-viajante, seguindo diversos eventos, raves, shows, festas de peão e também campeonatos de surf, sempre trabalhando com roupas ou organizando festas, como promoter ou barman, com um quê de figurinista também. Hoje viaja bastante para o litoral paulista, onde além dos campeonatos, fornece roupas para diversas lojas praianas e aproveita o tempo que sobra para surfar e tomar uma cervejinha com os amigos caiçaras.
O nome de sua empresa, “Progresso”, não parece ser mero acaso, com mais de desessete mil quilômetros rodados vendendo roupas pelo estado de São Paulo, Maicon comprou um Fusca, um investimento para a firma, para aumentar mais e mais ainda a sua quilometragem. Infelizmente, deparou-se com outro problema característico da megalópole paulistana: os ladrões de veículos. A pé novamente, não desanimou, em pouco tempo recuperou o valor perdido e agora pensa em investir num terreno. Onde? Está buscando um “bom negócio”, “um lugar tranqüilo”, onde possa prosperar, quem sabe casar e ter alguns bambinos. Seu sonho é morar em Florianópolis ou na Bahia, montar o seu próprio restaurante, que até nome já tem: Buffet “Restaura do Surf”. Para o futuro, tudo que deseja é viver em algum lugar onde possa ver o mar “todos os dias”. Acredita que “quem sobrevive neste ninho de cobras que é São Paulo, sobrevive em qualquer lugar”. Seja qual for o seu objetivo, seu destino, ou os seus destinos, com certeza ele os alcançará, o que com toda a simplicidade e olhando à Deus, é o próprio Maicon quem nos diz: “Com a fé nele, você conquista tudo”.
Diagrama do herói, a jornada mitológica de Maicon
Apenas para uma pequena reflexão em cima da história narrada, identificamos os aspectos mitológicos da vida de Maicon, relacionando-os com a análise do herói mitológico de Joseph Campbell (através do roteiro proposto por Christopher Vogler), reproduzida no quadro a seguir.
1º Ato – Apresentação
- Mundo Comum: A família; Belém do Pará
- Chamado à aventura: Morte da mãe, abandono do pai, separação da irmã
- Recusa ao chamado: Não queria deixar sua madrinha em Santarém para viver em Reginópolis longe de sua irmã
- Encontro com mentor: Seus amigos; Irmã (durante o colegial); Alê, mentor do surf; DJ, mundo da moda e
outros amigos
- Travessia do primeiro limiar: Morte da mãe; vinda à Reginópolis. Outros limiares: vinda à São Paulo. Arma mágica: prestatividade, amigabilidade. Elixir: independência
2º Ato – Conflito
- Aliados e inimigos: Inimigos: Indiferença da família; Aliados: Seus amigos; Irmã (em SP); perseverança
- Testes: Fome, necessidade de subsistência; busca por trabalho, sustento
- Aproximação da caverna oculta: Encarar a vida sozinho em São Paulo; Maioridade
- Provação suprema: Acidente de moto
- Recompensa: Chance para um recomeço; pausa para refletir sobre o destino
3º Ato – Resolução (futuro)
- Caminho de volta: Mundo da culinária; Buffet “Restaura do Surf”
- Ressurreição: Sonho de morar na praia, Florianópolis; Casamento, filhos
- Retorno com o elixir: Prosperidade, paz interior; Liberdade
Referências Bibliográficas
CARRARO, Renata. Jornalismo subversivo se faz com o olhar (snd).
CASATTI, Denise. Uma pessoa é mais importante do que a matéria (snd).
BRUM, Eliane. O colecionador das almas sobradas (pp 48-50) e O olhar insubordinado (pp 187-196) in A vida que ninguém vê. Porto Alegre-RS: Arquipélago, s/d.
Edifício Master. Dir. Eduardo Coutinho. Brasil: Videofilmes, 2002.
RINCÓN, Luiz Eduardo. A Jornada do Herói Mitológico in II Simpósio de RPG & Educação. São Paulo: Uninove, 22 à 24/09/2006.
Notas
[1] Em BRUM, Eliane. A vida que ninguém vê, pág. 188.
[2] Em CD anexo
[3] http://pedroom.blogspot.com
[4] Amigos que praticam surfe juntos. N. do A.
[5] Viagem para a praia com objetivo de surfar. N. do A.
[6] Degustação de vinhos. N. do A.
[7] Ajudante de garçom. N. do A.
