A mídia de um homem só: aspectos da utilização de weblogs no jornalismo digital

Origem: WikiPos, a enciclopédia livre.

A mídia de um homem só: aspectos do texto e do uso dos weblogs no Jornalismo Digital

Daniela Osvald Ramos

Resumo

Os Weblogs, conhecidos como “blogs”, objetos desta pesquisa, representam uma quebra no discurso midiático, que passa da esfera dos grandes emissores para a mídia individual – “cada indivíduo é uma mídia”. Eles seriam um escape de livre informação e um meio alternativo de se fazer Jornalismo. Muitos já se autodenominam “jornalísticos” e são lidos como tal. A mídia tradicional também já utiliza os recursos dos blogs, como o jornal online O Globo . Assim, pretende-se verificar quais são as estratégias de comunicação usadas nos blogs pessoais, críticos e jornalísticos e identificar o que os diferencia.

Palavras-chave

Weblogs; Jornalismo Digital; mídia individual; memória coletiva.

Introdução


“A escrita, em sua origem, é a voz de uma pessoa ausente.” (FREUD, 1997, pág. 43).


A palavra “weblog”, num primeiro momento, pode parecer sem sentido. Mas há muito por se recuperar da união de “web”, que significa teia ou, contemporaneamente, a internet, a rede mundial de computadores e “log”, que pode ser traduzido por: “diário de bordo, registro de vôo, registro de desempenho, cortar, cortar em cepos, derrubar árvores, lançar no livro de bordo, atingir determinada velocidade, registrar. Conectar: “to log in”, “to log out/off”: desligar, desconectar. Podemos lembrar, ainda, da função logarítmica. Ao contrário da função exponencial, que cresce indefinidamente, o logaritmo é uma ferramenta matemática que permite encurtar distâncias em um cálculo.

O significado mais imediato de weblog é “logar-se na rede”, mas também há outros – o blog (corruptela de “weblog”) também pode significar “cortar”, e verificamos que a divisão do blog em fragmentos textuais é uma das principais características que diferenciam os blogs de um site, por exemplo, assim como o é o caráter diarístico e a velocidade de publicação possibilitada pela internet – esta, considerada a revolução tecnológica de maior alcance da informação desde a invenção da imprensa por Gutenberg, em 1440. Podemos perceber que a complexidade do termo que nomeia o objeto desta pesquisa não é pouca. Também não é pouco o impacto que esta ferramenta de autopublicação pode trazer para o campo da Comunicação e do Jornalismo.

Podemos comparar o blog com um milenar suporte da palavra escrita, o papiro: um imenso rolo de textos que pode ser desdobrado verticalmente. A diferença para o meio digital é que os textos, em um blog, estão arquivados (com freqüência semanal, quinzenal ou mensal – a escolha é do autor), em hiperlinks; assim, é possível uma navegação. Mas, se fossemos montar a estrutura de um blog em papel, teríamos um rolo vertical com o texto mais recente no topo e, logo abaixo, os mais antigos. A internet possibilita, então, uma leitura vertical ao invés da leitura horizontal, como a proporcionada pelos livros e pela imprensa escrita (jornais e revistas).

Ao mesmo tempo que existe algo de ancestral na estrutura dos blogs, certamente o meio que serve de hospedeiro para essa linguagem, a internet, tem uma imagem de inovação e modernidade:

“Os jornais representam tudo que é velho no Jornalismo: é impresso sobre árvores mortas, distribuído por adolescentes mal pagos e lido por pessoas com cada vez mais idade. Os weblogs representam tudo que está em alta no Jornalismo: são escritos em primeira pessoa, acolhem diversas formas de pensamento e são distribuídos em uma plataforma global”.

A opinião de Mark Glaser, colunista do Online Journalism Review e um atento observador e analista do impacto dos blogs no Jornalismo nos coloca alguns valores que não podemos deixar de analisar para entender as mudanças pelas quais a mídia passa atualmente: a cada vez mais freqüente linguagem individual, que foge às normas tradicionais do texto jornalístico, a diversidade de opinião e oferta de informações, e a internet como um meio que possibilita a prática destes “novos” valores.

O uso da internet como meio de autopublicação também não é novo. Em 1996, no começo da popularização da rede no Brasil, já existiam muitas “páginas pessoais”, hospedadas principalmente no então serviço Geocities, gratuito, hoje uma parceria com o Yahoo. “O principal diferencial da nova ferramenta é que ela trouxe velocidade na criação, postagem e atualização dos ciberdiários, democratizando o acesso de não-especialistas em linguagens como HTML, FTP, dentre outras, à construção e manutenção de páginas pessoais (OLIVEIRA, 2002,pág.141). É a velocidade e facilidade um dos fatores que impulsionou a popularização dos weblogs e seus diversos usos. Uma das hipóteses que encontrei para a diversidade de gêneros dos blogs é a representação do ser humano através do computador, que não está ali naquele momento, mas que esteve ali em uma parte do dia. Por isso o blog pode ser um recurso narrativo que envereda pelo ficcional, diário ou jornalismo – porque carrega a origem da escrita – a ausência. Esta é a diferença principal entre as ferramentas assincrônicas na rede, como o e-mail, que pode ser comparado a carta, e o blog, que se ramifica em várias direções narrativas.

Como uma mídia multimídia, é natural a ramificação de blogs em vertentes que utilizem estes recursos da rede, como os “fotoblogs”, mantidos somente para a veiculação de fotografias, como um “álbum”, e os “audioblogs”, que disponibilizam som. Não vai demorar muito também para a popularização de “videoblogs”, com imagem em movimento. Porém, este tipo de blog tende a ser mais caro, pois é necessário mais espaço em servidores para arquivos de som e vídeo. Talvez por isso a leveza, literalmente, da palavra escrita, seja tão mais divulgada e acessada.

Pedro Dória noticiou em agosto de 2003 no seu blog “No Mínimo”  a crescente popularidade do então pré-candidato Howard Dean na “blogosfera” e sua estratégia de arrecadar fundos através do seu blog. Em fevereiro de 2004, deparei- me com a importância da utilização dos blogs para a campanha americana: a prestigiada Columbia Journalism Review lançou “The Campaign Desk”,  site que monitora a cobertura de todas as mídias americanas (jornais, revistas, TV, blogs) sobre a eleição presidencial. Paralelamente a esta iniciativa, o já citado Mark Glaser noticiou  que cidadãos norte-americanos já estavam exercendo a função de observadores de imprensa nos chamados “Watchblogs” com o lema “adopt a journalist”. A estratégia consiste em pessoas comuns, sem função na mídia, acompanharem a cobertura de um jornalista em especial. Desse modo, seria possível monitorar se determinado jornalista está ou não sendo tendencioso em sua cobertura, e se o processo dos seus textos fazem sentido. Os “watcherbloggers” querem evitar a manipulação que o jornalismo americano fez nas últimas eleições, quando George Bush competiu com Al Gore. “A mídia serve como um filtro de como as pessoas vêem os políticos, e se este filtro está distorcido, as pessoas terão um ponto de vista distorcido”, disse Bryan Keefer, editor do CJR a  Mark Glaser (op. Cit). Ou seja, a tecnologia, aqui, também serve para dar continuidade e sentido às reportagens. O registro e a disponibilidade diária das matérias sobre cada político auxiliam a construção de uma memória coletiva no Jornalismo, cuja fama de efemeridade é vasta. Este é um ponto a ser considerado pelos estudos da mídia: a internet é “instantânea”, mas também pode armazenar conteúdo e prolongar a memória. Questionado, também por Glaser, sobre a credibilidade dos blogs anônimos, Jay Rosen, coordenador do departamento de Jornalismo da Universidade de Nova York, respondeu: “a credibilidade é uma interação, não uma aura”.  Se o blog se mostrar confiável no dia-a-dia, o leitor teá ferramentas para julgar a idoneidade daquelas informações. E, se a credibilidade é uma interação, uma relação de duas vias, temos a internet como suporte para um novo tipo de Jornalismo.

Apontamentos para e exploração das possibilidades do texto na internet: o caso dos weblogs

Antes de falar do uso jornalístico, faz-se necessário uma breve reflexão sobre a escrita na internet. Este veio teórico surgiu durante a pesquisa sobre a construção do texto nos weblogs, principalmente por identificar na obra de Roland Barthes reflexões que remeteram à construção da escrita na internet. O texto nos weblogs está em processo contínuo e tem a prerrogativa de ser “interativo”. Isto quer dizer que o ciberleitor pode contribuir com o autor, deixando seus comentários e propondo novas discussões. Para entender até que ponto determinado fragmento do blog se desdobrou em outros textos, é sempre necessário ler os comentários dos leitores.

Ou seja, a partir da ferramenta de comentário o leitor pode deixar sua marca (“eu estive aqui, estou lendo e posso dar a conhecer minha opinião”), contribuindo para uma escrita coletiva – desdobramento técnico de uma idéia que Barthes defende em “O prazer do texto”, usando uma analogia adotada atualmente também para a rede, “a teia”:

“ ‘Texto’ quer dizer Tecido; mas, enquanto até aqui esse tecido foi sempre tomado por um produto, por um véu todo acabado, por trás do qual se mantém, mais ou menos oculto, o sentido (a verdade), nós acentuamos agora, no tecido, a idéia gerativa de que o texto se faz, se trabalha através de um entrelaçamento perpétuo; perdido neste tecido – nesta textura – o sujeito se desfaz nele, qual uma aranha que se dissolve ela mesma nas secreções construtivas de sua teia. Se gostássemos dos neologismos, poderíamos definir a teoria do texto como uma hifologia (hyphos é o tecido e a teia da aranha)” (BARTHES, 2002, pág. 74).

Leitor e autor em contínua conexão e a escrita que não tem fim. É o constante fazer do texto diário, diluído em fragmentos e a contribuição efetiva do leitor para a construção coletiva do mesmo que muda a relação do leitor digital com a milenar escritura. Como diz Barthes, o leitor de um livro contribui para a construção de sentido da obra, sem o que a leitura não seria possível. A internet possibilita efetivar esta construção como interferência concreta, pois o leitor deixa também seu texto marcado no texto do autor original, e mais: os outros leitores também podem acessar o produto final, “ampliado”.

Temos também a confirmação de que a leitura incentiva a produção de outros textos, como aponta, também, Barthes:

“Uma pura leitura que não chame a uma outra escritura é para mim algo incompreensível. Leitura como produção. O produto consumido é devolvido em promessa, em desejo de produção, e a cadeia dos desejos começa a desenvolver-se, cada escritura valendo pelo que ela gera, até o infinito”.(BARHTES Apud LIMA, 1993, pág. 213).

Esta dinâmica é visível nos weblogs e é suscitada por inúmeros fatores: leitura de produtos da mídia, televisão, cinema , literatura. Outra questão importante para a compreensão da natureza do texto na internet e dos weblogs é o “fragmento”. Cada texto (ou “post”) em um blog é um fragmento, pois na maioria das vezes o autor se utiliza deste recurso para falar de assuntos diferentes. Existem autores que escrevem uma vez por dia, e assim o dia representa um fragmento do texto maior daquele blog; outros escrevem mais de uma vez por dia e podemos juntar os textos de um dia como também um grupo de fragmentos. Se pudéssemos juntar todos os dias de escrita em um blog, teríamos uma imensa (dependendo do tempo de vida do blog)  continuidade de fluxo de textos. Se faria ou não sentido, dependeria do autor e renderia um ótimo estudo de crítica genética: estariam ali reunidos processos de escrita em estado puro. 

Jornalismo, Diários e Weblogs

O Jornalismo está em crise. O mercado de trabalho está cada vez mais enxuto no mundo inteiro; a credibilidade dos jornalistas sofre com a evidente preocupação das empresas em manter seus lucros ao invés de manter custos que seriam necessários para o bom exercício da profissão. As agências de notícias dominam os jornais. É cada dia mais difícil que um repórter saia para a rua ou seja enviado para cobrir um acontecimento se isso pode ser feito através de agências, telefone ou e-mail. Este panorama favorece o surgimento de mídias alternativas, assunto de capa da Columbia Journalism Review de setembro e outubro de 2003. Neste artigo, Matt Welch cita quatro pontos de contribuição dos blogs para o Jornalismo: “personalidade, função testemunhal, filtro editorial e incontáveis gigabytes de novo conhecimento” (WELCH, 2003, pág.24).

Paralelamente ao desenvolvimento de produções que analisam o impacto dos weblogs no jornalismo, temos também a contribuição de media criticism de Bill Kovach e Tom Rosenstiel, que identificam duas mudanças cruciais para a análise desta pesquisa: a primeira é que a idéia da imprensa como um guardião de informações, que decide o que o público deve ou não saber, perde seu lugar na sociedade contemporânea. É impossível competir com diversas opções de informações – e, mais ainda, com milhares de indivíduos dispostos a serem emissores de informação através dos seus weblogs. A segunda é o público, que “se converte não em consumidores, mas em “promidores”, um híbrido de produtor e consumidor”. (KOVACH & ROSENSTIEL, 2003, pág. 41).

Tendo em vista estes dois pontos de partida, temos o vislumbre de um novo caminho para o Jornalismo. A contribuição dos blogs para mais personalidade na informação é óbvia – já que cada blog pode ser mantido por um indivíduo somente, é mais que natural que ele use sua personalidade singular e senso crítico para conquistar um público leitor. A função testemunhal dos blogs se popularizou principalmente na guerra do Iraque com o controverso blog de Salam Pax, Where is Raed?, que supostamente escrevia a partir de Bagdá descrevendo o conflito, suas reações e a dos familiares. Foram levantadas dúvidas sobre a veracidade do blog de Salam, mas mesmo assim este não deixou de ser um sucesso. Do outro lado, soldados americanos mantinham o Military Families Weblog para dar notícias às famílias dos soldados de Kansas. O blog está hospedado em um portal e para ser acessado precisa ser pago.

A função de “filtro editorial” é exercida por blogs como o Robot Wisdom Weblog , que, como a própria função define, “filtra” notícias de vários periódicos (neste caso, todos em inglês). O objetivo é oferecer um serviço de seleção de notícias aos leitores, baseado na credibilidade e no ponto de vista do autor do blog: “Com a internet, as pessoas não precisam mais de filtros tradicionais” (BLOOD, 2002, pág.165).

Os “promidores” passam a exercer funções até então reservadas a jornalistas profissionais: “escolher pautas, julgar a credibilidade das fontes, escrever títulos, procurar fotografias, descobrir estilos de escrita, lidar com os leitores, construir audiência, conviver com calúnias, e ocasionalmente conduzir investigações por conta própria” (WELCH, 2003, pág.25).

Apesar das semelhanças entre a prática dos blogs com o Jornalismo, também identificamos uma semelhança com a prática diarística, já que no texto dos blogs também encontramos as características da descontinuidade e fragmentação. A internet, de certa forma, recuperou um gênero de diário que já existia:

“(...) os diários públicos são tão antigos quanto a própria escrita. Esta categoria está associada a uma tradição de escrita comunitária que, por muitos séculos, cumpriu uma função de divulgação pública de fatos e eventos análoga à que hoje desempenham os jornais (newspapers)” (OLIVEIRA, 2002,pág. 24). 

Mais recentemente, ainda, podemos apontar os weblogs como transmissores de informação que se abrem à esfera participativa e pública (nos limites digitais). A semelhança dos weblogs com os diários acarreta também mudanças no estilo de texto; um blog definido como “jornalístico” não necessariamente seguirá as regras estabelecidas pelo discurso jornalístico. Pelo contrário, é possível que a linguagem precise ser adaptada ao meio no qual o jornalista está inserido. No caso do weblog mantido por uma só pessoa, este estilo poderá ser informal – “Quanto menos formal o estilo, mais próximos estaremos de um tipo de discurso no qual a individualidade está presente” (OLIVEIRA, 2002,pág. 3). É inegável a forte presença do estilo pessoal nos blogs e com certeza isto influenciará a forma como o texto é praticado no campo do Jornalismo.

Mas foi somente no final do século XIX que o diário começou a ser encarado como o “livro do eu” – fato que coincide com a consolidação da burguesia e a noção da individualidade a partir do surgimento da psicanálise, com Sigmund Freud. A partir de então, cada vez mais o indivíduo adquire importância na cultura ocidental, e o fenômeno dos weblogs, que representa a “encarnação” do poder da possibilidade da mídia de um homem só, vem confirmar o quanto isso ainda trará conseqüências para o campo da Comunicação e do Jornalismo.

Metodologia

A definição usada para o “weblog” foi baseada na funcionalidade da ferramenta e não no conteúdo dos textos. Assim, uma pessoa que faça um relato íntimo da sua vida através de um site com várias páginas e seções não estará fazendo um blog, mas um site. Um weblog pode ser definido como “um website cujas informações são atualizadas freqüentemente e apresentadas em ordem cronológica reversa (novo conteúdo em primeiro lugar)”. Existem também detalhes técnicos para a definição de um weblog, que foram usadas nesta pesquisa, tais como:

• É um site de uma página só, no qual os textos são divididos pela data de entrada - se escrevo um texto e publico, ele fica identificado com a data e o horário. A forma de atualização de um weblog é através de um sistema de publicação disponível apenas para este fim, como o Blogger (http://www.blogger.com.br). • Os textos podem ser agrupados somente cronologicamente: os arquivos são gerados automaticamente no intervalo de meses ou semanas, de acordo com a preferência do usuário. • Cada texto pode ser comentado pelo ciberleitor logo após sua publicação. • O weblog pode ser coletivo ou individual. • O blog tem várias funções opcionais. É possível inserir um contador de audiência, por exemplo, que passará a gerar relatórios, quantificando o número de acessos, a origem de qual país vem o usuário, qual navegador ele usa, através de qual provedor ele acessa a rede e outras funções úteis para quem gosta de monitorar o público. É possível, através desta ferramenta, saber também como o ciberleitor chegou no blog em questão; se ele procurou em sistemas de buscas e quais palavras usou e, ainda, através de qual link. Assim, pode-se saber se o leitor visitou o blog por um link de outro blog, ou se acessou por meio de uma busca no Google. O usuário também pode inserir links para os sites que achar pertinentes e inserir imagens. • O “design” do site é escolhido através de “templates”- páginas já prontas que podem ser adaptadas pelo usuário. Mas, em geral, o design de um blog é simples, pois ele é composto de somente uma página e arquivos.

Critérios analisados

Título Extensão do texto Ilustrações ou recursos fotográficos Links de referência Conteúdo e quantidade de comentários deixados pelos ciberleitores Conteúdo


Blogs analisados

Os dados da pesquisa foram colhidos em setembro e outubro de 2003, nos seguintes weblogs:

Críticos - Autodefinidos como “Jornalismo”

Jornalismo e Comunicação Weblog colectivo criado no âmbito do Mestrado em Informaçõo e Jornalismo da Universidade do Minho http://webjornal.blogspot.com/

Jornalismo Digital Informações sobre o jornalismo e a internet http://www.webjornalismo.blogspot.com/

Ponto Media Weblog de António Granado http://www.ciberjornalismo.com/pontomedia.htm

Pessoais

Cora Ronai http://www.cora. blogspot.com

De que jeito? http://www.dequejeito.com.br/

Afrodite sem Olimpo http://www.letti.com.br/afrodite/


Profissionais

Pedro Doria – No Mínimo http://nominimo.ibest.com.br/servlets/newstorm.notitia.apresentacao.ServletDeSecao?codigoDaSecao=33&dataDoJornal=atual

João Ximenes Braga – O Globo http://oglobo.globo.com/online/blogs/ximenes/

Helena Chagas – O Globo http://oglobo.globo.com/online/blogs/helena/

Tereza Cruvinel – O Globo http://oglobo.globo.com/online/blogs/tereza/


Abordagem teórica

A visão teórica foi a da crítica genética. Esta, ao utilizar seu corpus teórico para analisar o processo de criação de artistas em diferentes áreas, assume que seu objeto de investigação não é um produto acabado, mas em processo de transformação. Observei, ao tomar contato este campo de investigação, que os weblogs, objeto desta pesquisa, estão sempre em processo, já que sua atualização é dividida temporalmente por dias: cada dia é um texto, cada texto parte de um texto maior, que engloba o blog “inteiro”, como se cada dia fosse um capítulo e a reunião de um ano de atualização, por exemplo, formasse um “livro”. Um “livro” hipertextual, no qual os comentários dos leitores também fizessem parte de cada capítulo. Em essência, o blog é cotidiano e contínuo – sua feitura não objetiva um “final”. Quem decide quando acabar o blog é o seu autor, que tem muitos critérios que não seja necessariamente considerar o “texto pronto”. Assim, a abordagem metodológica de análise dos weblogs leva em conta estas considerações teóricas e também considera cada texto como fragmentos de um texto maior, sempre em processo.

Conclusões parciais

Como esta pesquisa ainda está em andamento, apresento as conclusões parciais. Os weblogs profissionais, de uso estritamente jornalístico, tendem a usar linguagem pessoal e mais próxima do leitor, assim como os blogs pessoais, ultrapassando os limites do colunismo. João Ximenes Braga, do O Globo, precisou entrar em discussão com os leitores para justificar sua legitimidade como colunista (apesar de já o ser). A natureza da escrita interativa nos blogs faz com que seja impossível o papel do jornalista que tem a “palavra final”. O blog se configura como um espaço de intervenção na opinião dos colunistas, eles são “forçados” a reverem posições, sob pena de xingamentos.

Um comentário de Tereza (em 08/10/2003) revela um pouco das implicações de uma exposição maior do colunista que usa também os blogs para entrar em contato com seus leitores: “Hoje mesmo escreveu um jornalista que leu nossa conversa no blog anterior. Fiquei um pouco sem graça porque havia falado do país dele como se estivesse na intimidade com vocês, e estava em rede”. A credibilidade do colunista em um blog precisaria de uma vigilância redobrada.

Já Pedro Doria tem um perfil crítico e observador da imprensa, principalmente a norte-americana. Seus textos são construídos com links que remetem às fontes de seus comentários sobre determinado assunto. Em 22 textos, todos tem título: sem dúvida uma evidência que Pedro recorre às normas cultas do texto impresso e jornalístico na sua transposição para a web. Possui um público cativo que, embora evite excessos de comentários, acompanha assiduamente os textos, em geral, não muito longos nem muito curtos.

Os blogs pessoais tendem a usar recursos jornalísticos (apuração, edição), a utilizar os “ganchos” para que os leitores reajam ao texto e identifiquem o blog como um espaço de convivência. O blog “De que jeito”, mantido por Moskito, evidencia a faceta adolescente da escrita pessoal: 337 comentários, cuja estrutura se assemelha ao dos bate papos; a diferença é que no blog não há simultaneidade de pergunta-resposta, ao contrário, é uma ferramenta assincrônica. Mas Moskito tem cuidado jornalístico com os posts: de 15, 12 têm título, o que facilita a reação imediata dos ciberleitores. Cora Rónai, jornalista e também colunista do jornal O Globo, faz um blog pessoal mas também informativo: o motivo de ter mais imagens que os outros blogs são as experiências que Cora faz com novos produtos da tecnologia, como celular com câmera fotográfica. No entanto, comentários pessoais se misturam aos profissionais, como quando a jornalista viaja para o Estados Unidos para um congresso mas também aproveita para visitar a família.

Já Claudia Letti, do blog “Afrodite Sem Olimpo”, é um exemplo do uso dos recursos textuais nos blos pessoais. Quando ela escreve “Tenho Medo” (17/09/2003), e elenca suas razões (“Tenho medo de médico, estouro de boiada”, etc), os 28 comentários seguintes são uma resposta – os leitores também falam do que eles próprios temem. É uma estratégia realmente pessoal, assuntos “tocantes”, que atingem o cotidiano e a subjetividade dos leitores criando um elo de expectativa para o “próximo capítulo”. “Claudia, minha querida, seu cotidiano entrou dentro de mim”- é o comentário de uma leitura que exemplifica a estratégia de comunicação dos blogs pessoais. O público procura algum tipo de identificação e são instigados a responder no mesmo tom.

Os weblogs considerados críticos (ver “Metodologia”)  são agentes de disseminação de referências e apontam fontes de leitura para os leitores no ciberespaço. Quando comentam algum assunto, é de forma sucinta, porém a independência editorial faz com que um fato seja cercado realmente por todos os lados da questão através do hipertexto  - função que traz a característica “hiperdimensional” da informação, promovendo reflexão, memória e informação. Estes blogs não produzem “conteúdo” próprio, mas fazem o uso do link de uma maneira exemplar dentro do que seria possível no campo do Jornalismo Digital, o que ainda não é praticado pelos meios tradicionais de Jornalismo.

Bibliografia

ALBUQUERQUE, Afonso de. Os desafios epistemológicos da comunicação mediada pelo computador. Trabalho apresentado pelo GT de Epistemologia da Comunicação para a XI Compós, UFRJ, Rio de Janeiro, 2002.

BARTHES, Roland. O prazer do texto. Editora Perspectiva, São Paulo, 2002.

_____. Aula. Editora Cultrix, São Paulo, 1996.


_____. Roland Barthes por Roland Barthes. Estação Liberdade, São Paulo, 2003.


BLOOD, Rebecca. We've Got Blog: How Weblogs Are Changing Our Culture. Perseus Publishing, New York, 2002.

CAVALCANTI, Mario Lima. Live blogging: uma nova tendência? Comunique-se. http://www.comunique-se.com.br Acesso em 21/10/2003.

_____. Weblogs, Inc.:apostando no B2B. Comunique-se. http://www.comunique-se.com.br Acesso em 30/09/2003.

_____. Tom Leão e o Blog do Bonequinho. Comunique-se. http://www.comunique-se.com.br Acesso em 26/08/2003.

COSTA, Cristina. A milésima segunda noite – da narrativa mítica à telenovela, análise estética e sociológica. AnnaBlume, Fapesp. São Paulo, 2000.

COLUMBIA JOURNALISM REVIEW. WELCH, Matt. Blogworld and its gravity. The new amateur journalists weigh in. Setembro/Outubro 2003.

DENTON, Nick. The atrocity through the eyes of weblogs. Guardian Unlimited Network. http://www.guardian.co.uk/ Acesso em 22/08/2003. FREITAS, Angélica. Diário na internet: 300 mil brasileiros já tem um. O Estado de São Paulo, 14/05/2003.

FREUD, Sigmund. O Mal-Estar na Civilização. Imago, 1997, Rio de Janeiro.

GLASER, Mark. “Weblogs are pushing the Newsroom Envelope nos writers´ Spontaneity”. Online Journalism Review, http://ojr.org/ojr/glaser/ Acesso em 22/02/2004.

_____. 'Watchblogs' Bring Political Press Coverage to Micro Level. Online Journalism Review, http://ojr.org/ojr/glaser/ Acesso em 22/02/2004.

____. “Google + Blogger = Mainstream Weblog Acceptance?” Online Journalism Review, http://ojr.org/ojr/glaser/ Acesso em 18/02/2003.

_____. “Weblog Indexes Help Journalists Track Stories – and Boost their Egos. Online Journalism Review, http://ojr.org/ojr/glaser/ Acesso em 25/08/2003.

JOHNSON, Steve. A cultura das interfaces. Como o computador transforma a nossa maneira de criar e comunicar. Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 2001.


KOPYTOFF, Verne. Internet giants eatch on to blogs. Major portals provide services for online journals. SFGate.com. http://www.sfgate.com Acesso em 02/09/2003.

KOVACH, Bill & ROSENSTIEL, Tom. Os Elementos do Jornalismo. O que os jornalistas devem saber e o público exigir. Geração Editorial, São Paulo, 2003

LIMA, Regina Helena Souza da Cunha. O desejo na poesia de Ana Cristina César – Escritura de T (e)s. Annablume, São Paulo, 1993.

MADEIRA, Paulo Miguel. “Webloggers saem para a rua”. Jornal “Público”. http://jornal.publico.pt/ Acesso em 24/09/2003.


OLIVEIRA, Rosa Meire Carvalho de. Diário Íntimo como gênero discursivo e suas transformações na contemporaneidade. Dissertação de mestrado, Faculdade de Comunicação, Universidade Federal da Bahia. Salvador, 2001.

_____. De onda em onda: a evolução dos ciberdiários e a simplificação das interfaces. Biblioteca on-line de ciências da comunicação. http://www.boccubi.pt Acesso em 24/10/2003.

OUTING, Steve. Advancing Citizen Blogs on News Sites. Editor & Publisher. http://editorandpublisher.com Acesso em 20/10/2003.

RAMOS, Daniela Osvald. Astrologia online: um estudo da mediação tecnológica. Escola deComunicações e Artes, Universidade de São Paulo, 2002. Dissertação de mestrado.


SALLES, Cecilia Almeida. Crítica Genética. Educ, São Paulo, 2000.

Personal tools