Economia da mobilidade e a máquina de telecomunicar

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A ECONOMIA DA MOBILIDADE E A MÁQUINA DE TELECOMUNICAR.

Sérgio Amadeu da Silveira


O computador nasceu como uma máquina de processar informações. Os primeiros computadores pouco interagiam com os seus próprios usuários. Suas aplicações e usos foram alargados e adequados pelas necessidades sociais e culturais dos segmentos que os empregavam. Assim, o computador tornou-se uma máquina de comunicação. Primeiro, a introdução do monitor e do teclado permitiram que ele interagisse ininterruptamente com aqueles que o estavam utilizando. Depois, uma série de avanços tecnológicos somados à expansão das redes de conexão, transformaram o computador em uma das principais máquinas da comunicação contemporânea.

Atualmente, a maioria das pessoas usam os computadores como intermediários de uma intensa comunicação em rede. Esta impressionante máquina baseada no acumulo de idéias de inúmeras pessoas, entre as quais destaco Alan Turing, evoluiu sem abandonar suas características anteriores. O fato do computador ser uma ferramenta em que jovens trocam mensagens instântaneas, acesssam suas comunidades no Orkut e falam pelo gmail talk não impedem que ele possa continuar a ser utilizado para realizar cálculos complexos, construir algoritmos, fazer simulações ou executar projeções estocásticas.

O avanço do wireless ou comunicação sem fio e a expansão dos laptops geraram um ambiente de mobilidade em que várias tecnologias estão sendo testadas e aplicadas com relativo sucesso. Uma delas viabiliza a comunicação entre computadores sem a necessidade de uma infra-estrutura local de telecomunicações. Trata-se das tecnologias wireless que utilizam a arquitetura mesh ou em malha. O computador assim entraria em uma nova fase e ganharia mais uma atribuição. De máquina de calcular e processar para máquina de comunicar e, agora, afirma-se como máquina de telecomunicar. Como assim?

Uma das grandes sacadas dos professores Nicholas Negroponte e Seymour Pappert foi lançar o projeto OLPC (One Laptop per Child ou Um Laptop por Criança). Além de sua proposta gerar uma mobilização na indústria de hardware para pensar soluções que reduzirão seus precos onde ela alegava ser impossível (basta observar quando e porque surgiu a proposta do Classmate promovida pela Intel em parceria com a Microsoft), o conhecido Laptop de 100 dólares é uma completa revolução na concepção de uso do computador. Trata-se de uma máquina de telecomunicar.

Em uma pequena cidade com dois mil alunos e duzentos professores, por exemplo, ou em um município com 200 mil estudantes e milhares de educadores, todos poderão se conectar localmente sem intermediários. Cada Laptop terá um mecanismo para a transmissão, recepção e retrasmissão de dados. Cada máquina será uma pequena torre de retransmissão do sinal das demais. Assim, se eu estou na zona norte da cidade e preciso falar com a professora que está na sul, minha mensagem irá saltando de computador em computador até chegar a seu destino. O computador do professor Negroponte tem um mecanismo que permite retransmitir o sinal de outros computadores mesmo quando estiver desligado. É semelhante ao que acontece com o video em nossas casas. Quando apontamos o controle remoto, ele recebe o sinal e liga automaticamente. Genial.

Sem dúvida, o laptop proposto pela equipe de Negroponte e Pappert viabilizará a idéia do computador como máquina de telecomunicar. Poderemos ligar diretamente máquina com máquina, sem necessidade de recorrermos as operadoras de telefonia construindo uma rede completemente descentralizada, uma rede mesh ou malha, em português. No caso das escolas, as crianças usando o laptop não terão custos de conexão. Mesmo quando a cidade não estiver conectada à Internet, as pessoas poderão continuar trocando suas mensagens e construindo suas práticas colaborativas. Os servidores das escolas poderão continuar a oferecer seus conteúdos, educativos e culturais. Grupos de ativistas e internautas locais poderão criar suas experiências e seus sites sem custos de conexão.

Os professores serão chamados a pensar uma educação em rede substituindo o formato hierárquico e pouco estimulante que é empregado até hoje. Oficinas de construção de conhecimento compartilhado serão possíveis, se os professores forem envolvidos nesse processo de emancipação e revolução educacional. O uso da comunicação em redes descentralizadas, de baixo custo e da digitalização da produção simbólica da nossa sociedade combinado com um processo mobilizador dos nossos educadores e da escolas pode gerar um desenvolvimento humano e cultural que são imprescindíveis ao nosso país.

Quem não gosta disso? Os mega grupos da sociedade industrial que temem que o Laptop proposto por Negroponte irá canibalizar seus negócios. Os que querem limitar as placas de wireless dos computadores as funções de transmissão e recepção de dados, impedindo a função de retransmissão e a implantação de redes mesh cuja a inteligência do roteamento (a localização dos endereços) esteja aplicado em cada computador. Quem mais? O monopólio mundial de software para desktop que quer evitar desesperadamente que as crianças usem software livre e deixem de ser aprisionadas ao seu produto. O computador de Negroponte, Pappert, Bender, Cavallo e tantos outros, querem incentivar que as crianças e adolescentes que tenham vocação possam acessar a inteligência embutida no seu hardware e software, por isso utiliza software de código-fonte aberto. As mentes proprietárias articulam-se desesperadamente para bloquear a liberdade para o conhecimento tecnológico. Quem irá vencer? Não sabemos, mas a luta será intensa.

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