O filme Gladiador e a Jornada do Herói Mitológico

Origem: WikiPos, a enciclopédia livre.

FACULDADE CÁSPER LÍBERO
Coordenadoria de Pesquisa e Pós-Graduação
Programa de Pós-Graduação Stricto Sensu em Comunicação
Narrativas de Ficção – Prof. Dr. Dimas Antonio Kunsch

Análise Crítica: Filme “Gladiador” de Ridley Scott
Pedro Luiz de Oliveira Costa Bisneto RA. 07000979 pbisneto@uol.com.br 2007

Conteúdo

O “Gladiador” e a Jornada do Herói Mitológico

Um filme de Ridley Scott

Baseado no Roteiro de Christopher Vogler (a partir do livro de Joseph Campbell, “O Herói de Mil Faces”) em “A Jornada do Escritor”, montado por Luiz Eduardo Rincón. Análise de Pedro Luiz, Mario David, Celso Agostinho e Gabriel Lages. Texto de Pedro Luiz.

Dados do Filme

  • Título do Filme: Gladiator, EUA, Universal Pictures, 2000;
  • Direção: Ridley Scott;
  • Elenco:

o Russel Crowe, como Maximus; o Joaquin Phoenix, como Commodus; o Richard Harris, como o Imperador Marcus Aurelius; o Connie Nielsen, como Lucilla; o Estrelando também: Oliver Reed, Derek Jacobi, Ralph Moeller, Spencer Treat Clark e Djimon Hounsou (como Juba).

  • Duração: 154 min;
  • Oscars: Melhor Filme, Ator (Russel Crowe), Figurino, Efeitos Visuais e Som;
  • Ganhou também o Globo de Ouro, MTV Movie Awards e prêmios no Japão, Inglaterra e outros no próprio Estados Unidos.

Introdução

O Herói

O herói desta jornada é Maximus Decimus Meridius, comandante dos exércitos do norte, General das Legiões Felix, servo leal do Imperador Marcus Aurelius. É um guerreiro em fim de campanha de uma longa batalha que fez parte das invasões bárbaras germânicas que assolaram os romanos no século II. Maximus é casado e pai de um menino, possui várias características que se revelam durante sua jornada, típicas do herói hollywoodiano: é conquistador, forte, másculo, honesto, honrado, justo, desejado, sedutor, fiel, amoroso, generoso, glorioso, misericordioso, libertador, possui espírito de liderança, bravura, sabedoria, resistência, temperança, desenvoltura, coragem, devoção, virtuosidade, é como seu nome diz: o máximo.

O Antagonista

Marcus Aurelius Commodus Antoninus, filho do Imperador Romano de mesmo nome, é o vilão dessa estória. Suas características são opostas as do nosso herói, assim, adjetivos como crueldade, maldade, desonestidade, infidelidade, orgulho, vaidade, covardia, desonra, estupidez, fraqueza, submissão, amoralidade, loucura e luxúria fazem parte de sua obscura personalidade, ele ainda é conspirador, invejoso, emasculado, iconoclasta, assassino, tirano, estuprador, manipulador, trapaceador, sanguinário, incestuoso e infeliz. Uma figura absolutamente do mal, o típico vilão de Hollywood, que deve ser totalmente combatido, física e ideologicamente, morto, enterrado e esquecido.

Primeiro Ato - Apresentação

O Mundo Comum

Ano 180 d.C., Império Romano: o General Maximus (Russel Crowe)[1] , está andando por entre suas tropas, prestes a enfrentar a última batalha de uma longa guerra entre o Império e os Bárbaros Germânicos. Maximus é saudado por seus guerreiros: infantes, artilheiros e cavaleiros, de longe, a figura do velho Imperador Marcus Aurelius (Richard Harris) – o César – o observa com um olhar de cansaço. Antes da batalha, Maximus convida seus comandados à glória máxima, a morte por Roma: “se morrerem, estarão no paraíso... pois vocês já estão mortos...”, “o que vocês fazem na vida, ecoa na eternidade”, brada o Líder, aqui a batalha assume ares de “Guerra Santa”, embora o Império Romano ainda perseguisse os cristãos e possuísse uma pluralidade de deuses, o Deus a quem lutavam era o César[2]. Após a batalha e a vitória dos Romanos. Marcus Aurelius, pergunta ao General Máximo qual é a recompensa que ele deseja após tantas glórias pelo Império, ele diz: “voltar para casa”. Ressentido, velho e cansado, Marcus Aurelius já não acredita mais na “glória de Roma”, tudo que o Imperador quer é descansar em paz, deixando seu Império na mão dos justos, e a justiça para ele, é a pessoa do General Maximus. E quanto a Roma? “É uma idéia”, diz o Imperador ao seu mais fiel escudeiro. Neste ínterim, Commodus (Joaquin Phoenix) – filho de Marcus Aurelius – aparece em cena junto de sua irmã, Lucilla (Connie Nielsen), ele confidencia à irmã que o convite inesperado de seu pai deveria ser para que ele assumisse o poder o Império, algo que ambiciona. Commodus se encontra com Maximus e outros senadores do Império, enquanto Commodus demonstra ressentimento com a política e os senadores, estes demonstram sua admiração por Maximus, um deles, Graius, diz: “com esse fiel exército, você teria muito poder na política”, demonstrando assim, que de fato há uma conspiração do senado que tenciona tomar o poder em Roma e re-instaurar a República. Commodus, acreditando que herdará o trono, convida Maximus a servi-lo, e ainda demonstra ressentimento em relação ao general, inveja por sua irmã Lucilla ainda amar Maximus, com quem tivera um romance no passado.

Chamado à Aventura – Recusa ao Chamado – Encontro com Mentor

Marcus Aurelius CHAMA Maximus À AVENTURA para ser o “protetor do Império”, para ficar com o poder, por merecimento por suas glórias, sua pureza e sua honestidade. Quando questionado pelo general sobre Commodus, o Imperador responde: “ele não é um homem de moral”. Maximus RECUSA O CHAMADO, simplesmente diz “não”, tudo que ele quer é voltar para a família. O Imperador insiste, o fato de Maximus negar-se ao cargo demonstra o porquê dele ser o “escolhido”, e acrescenta: “você é o filho que eu deveria ter tido”. Este é também o ENCONTRO COM O MENTOR, onde Maximus, guerreiro que luta pela “glória de Roma”, está face a face com o representante máximo de Roma, o Imperador, o mentor à qual demonstra total devoção e respeito. Muito em função disso, Maximus pede para pensar sobre a penosa tarefa a qual o Imperador o convocara, e o prazo para resposta é o amanhecer do dia seguinte.

A Trama

Neste ponto, temos toda a trama dessa épica estória desenhada. O General Maximus é o grande vitorioso, herói de guerra, de inúmeras batalhas e glórias, amado e respeitado por seus comandados. O Imperador Marcus Aurelius, velho e cansado, não confia no filho, Commodus, e quer passar o seu poder a quem o mereceu, Maximus. Commodus nutre uma inveja e ressentimento em relação a Maximus, por este ser admirado por seu pai e ser amado por sua irmã, quer então, tê-lo sob seu jugo, ainda é ambicioso e quer herdar o trono, mas... Ele não sabia que seu pai já havia convocado Maximus para assumir o Império, e este teria que decidir se aceitava até o amanhecer...

Novo Chamado à Aventura – Travessia do Primeiro Limiar

Antes mesmo de o sol nascer, Commodus, toma ciência da decisão de seu pai e o estrangula. Ao saber da morte de Marcus Aurelius, Maximus, desconfia da trama de Commodus e recusa-se a apertar a mão do novo Imperador. Por detrás da cama onde jaz seu pai, Lucilla chora, pois sabe o que está por vir e, assim que se vê frente a seu irmão, o esbofeteia. Commodus manda prender e executar Maximus. Subitamente, Maximus está frente a uma nova aventura, fugir de Commodus, voltar para casa e salvar sua família. Maximus cruza o seu PRIMEIRO LIMIAR, deixa de ser soldado de Roma e é condenado à morte. Mesmo preso, Maximus consegue livrar-se de seus executores e fugir, a AVENTURA O CHAMA para salvar sua família da ira de Commodus. Porém, Maximus chega tarde ao seu destino, os soldados de Commodus já os mataram, e o ex-general fica impotente diante de seus corpos enforcados e queimados... Assim, Máximos é compelido a um NOVO CHAMADO À AVENTURA, que é a busca da justiça para sua mulher e seu filho, a busca por VINGANÇA, um chamado para o qual não há recusa.

Novo Mentor – Travessia do Último Limiar

Salvo por mercadores de escravos, Maximus é vendido para um ex-gladiador e rico comerciante, Próximo (Oliver Reed). Este possui e treina gladiadores, parece-se com um sargento militar na forma como trata seus lutadores, convocando-os à glória na arena. Como escravo-gladiador, Maximus – que passa a ser conhecido como “Espanhol” – é obrigado a lutar mas, mais uma vez, RECUSA O CHAMADO, insubordinando-se ao seu novo “dono”, o seu NOVO MENTOR. Porém, quando chega o momento de adentrar a arena, Próximo diz à Maximus e sua trupe de gladiadores: “vocês são condenados à morte... só resta morrerem com Glória”, a glória da arena. Maximus sabe que para sobreviver e buscar sua vingança, é preciso lutar, buscar a glória na arena, ou irá morrer sem vingar sua família. Sem possibilidade de voltar atrás, impelido à luta, Maximus faz então, a TRAVESSIA DO ÚLTIMO LIMIAR, onde não há mais caminho de volta. Volta para onde ele se sente em casa, o campo de batalha.

Mais um Chamado à Aventura – O Elixir

Enquanto isso, em Roma, Commodus é acuado por seus senadores, precisa do apoio do povo para destituir o senado e reinar sozinho. Sem habilidade para promover guerras que trazem a “glória de Roma” como seu pai fazia ao lado de Maximus, Commodus adere à política do pão e circo, e promove a volta dos jogos, as batalhas de gladiadores no Coliseu de Roma[3]. Pratica que havia sido banida por seu pai anos antes. Longe dali, “Espanhol” já lidera sua trupe de gladiadores em Zucchabar, uma província romana, quando é chamado por Próximo, este o convoca para dias de glórias nas arenas do Coliseu de Roma diante do César. Maximus diz que tem interesse em ficar diante o Imperador, e de pronto atende a este novo chamado. Seu novo mentor diz: “ganhe a multidão, e ganhará a liberdade”, como havia sido com ele próprio. Esse NOVO CHAMADO À AVENTURA, desta feita é acompanhado de uma recompensa, um ELIXIR: a liberdade. Um elixir, ou a ARMA MÁGICA que trará à Maximus enfim a tão sonhada liberdade que o leva direto a sua vingança.

Segundo Ato – Conflito

Testes, Aliados e Inimigos e a Aproximação da Caverna Oculta

O PRIMEIRO TESTE que “Espanhol” tem de enfrentar junto com sua trupe de gladiadores no Coliseu de Roma é uma re-encenação de uma batalha entre romanos e bárbaros cártagos, vencida pelos romanos. A trupe de Espanhol tem a dura tarefa de desempenhar o papel dos cartágos derrotados. ALIADO de seus gladiadores e com seu INIMIGO presente à Arena – o Imperador Commodus – Espanhol, lidera e vence seu primeiro obstáculo, mudando a retratação do que deveria ser uma vitória romana e termina como uma derrota. Entusiasmado com a batalha, Commodus quer conhecer Espanhol, apenas para descobrir que ele é, na verdade, aquele que acreditava estar morto, o General Maximus. Feita a revelação frente a seu antagonista, logo a multidão está gritando o nome de Maximus. Após essa revelação, Lucilla tenta se aproximar de Maximus, convidando-o para fazer parte de uma conspiração liderada pelo senador Gracchus (Derek Jacobi), que visa à derrubada de Commodus. Porém, mais uma vez, Maximus RECUSA O CHAMADO.

O SEGUNDO TESTE de Maximus é enfrentar o invicto gladiador Tigris, o gigante de Gália, numa batalha “one ‘n’ one[4]”. Apenas para dificultar esse “teste”, os gladiadores eram cercados por tigres presos a correntes em volta da arena. Ao final da luta, com Tigris subjugado, Maximus volta-se ao Imperador, este aponta seu polegar para baixo indicando o desfecho da batalha. Maximus, como não poderia se esperar de outra forma tratando-se de um filme hollywoodiano e seus típicos clichéts, recusa-se a executar seu oponente, e todos ouvem um grito que vem das arquibancadas: “Maximus, o misericordioso”. Maximus, a cada luta, ganha a multidão, a sua arma mágica para a liberdade e a vingança. A cada luta também, Maximus APROXIMA-SE DA CAVERNA OCULTA: enfrentar Commodus e fazer justiça ao assassínio de sua família. Após o triunfo, ainda na arena, Maximus é cercado por Commodus e seus guardas, é humilhado pelo Imperador que zomba da morte de seu filho e do estupro de sua esposa[5]. Maximus torna-se uma verdadeira celebridade, admirado pelos homens, desejado pelas mulheres, um verdadeiro popstar dentro do contexto romano do séc. II. Uma celebridade a qual Commodus não pode atentar sem se passar como um antagonista à misericórdia[6], ser visto como um bruto, tirano. Só resta uma saída para Commodus silenciar seu oponente: subjugá-lo em seu palco de glória, matá-lo na arena. Após esse episódio, Maximus aceita a ajuda de Lucilla e do senador Gracchus para dar um golpe militar em Commodus, mas este descobre tudo, manda prender Gracchus e coage Lucilla, ameaçando a vida de seu filho Lucius (Spencer Treat), subjugando-a, obrigando-a inclusive, a lhe servir de favores sexuais incestuosos. Nesse ínterim, Próximo concede a liberdade a Maximus, tarde demais porém, os soldados de Commodus já haviam chego para matar Próximo e prender Maximus e seus gladiadores.

Provação Suprema

Finalmente, Maximus chega a Caverna Oculta, a sua PROVAÇÃO SUPREMA que era, como não poderia deixar de ser, enfrentar Commodus na arena do Coliseu de Roma, com um detalhe: Commodus o esfaqueara previamente, ou seja, trapaceou para garantir sua vitória na arena, enfrentando um adversário ferido mortalmente.

Recompensa

Maximus mata Commodus com sua própria faca após desarmá-lo. Deitado, ferido, Maximus concede o poder do Império ao senador Gracchus, pede também que seus homens sejam libertos. A morte de Commodus é a RECOMPENSA de Maximus, sua vingança está consumada, justiça à sua família está feita, liberdade a seus aliados e ao povo romano concedida.

Terceiro Ato - Resolução

Caminho de Volta - Ressurreição

Maximus morre na arena vitima dos ferimentos que Commodus[7] o infligira covardemente antes da luta. A morte é o seu caminho de volta, desejado logo após a batalha inicial dessa jornada, a volta para sua família. Então, seu CAMINHO DE VOLTA agora é o paraíso, onde seus entes queridos o esperam, e enfim Maximus segue seu tão batalhado destino – um sonho que tinha desde o início do filme. A vida após a morte, a eternidade em paz junto com sua família no paraíso é a RESSURREIÇÃO de Maximus. Assim como a libertação de Roma do tirano Commodus e a mudança do regime imperialista para o republicano através da figura do senador Gracchus[8]. A vitória de Maximus também representa a liberdade para Lucilla e seu filho, Lucius, e também para seus homens. A ressurreição de Maximus e seus aliados é a morte de Commodus, a origem de todo o mal, um happy-end clássico com o triunfo do bem sobre o mal. A liberdade[9] é a recompensa para todos os “justos”, um final feliz.

Retorno com Elixir

O RETORNO do herói Maximus se realiza através do seu ELIXIR que é, como já mencionamos, a liberdade, que neste caso tem sua face na morte que o liberta, levando-o de volta ao seu filho e a sua esposa no paraíso, como era seu desejo e ele via no sonho que o acompanhava desde o começo dessa estória.

Diagrama da Jornada do Herói Mitológico em o “Gladiador”

1º Ato – Apresentação 
	
*Mundo Comum: Guerra, Império Romano.
*Chamado à aventura: Convocado a assumir o império; salvar sua família; vingar sua família, conspirar- se contra o poder; libertar a si e seus companheiros. Os chamados a essas aventuras são feitos respectivamente por Marcus Aurelius, Commodus, Commodus, Lucilla e Marcus Aurelius.
*Recusa ao chamado: Diz “não” ao Império; recusa-se em princípio a conspirar contra o poder.
*Encontro com mentor: Imperador Marcus Aurelius,devoto; Próximo, escravo.
*Travessia do primeiro limiar: Deixa seu mundo comum: é condenado à morte; sua família é assassinada; é obrigado a lutar como gladiador e buscar a glória na arena. Arma mágica: glória na arena. Elixir: liberdade.
2º Ato – Conflito *Aliados e inimigos: Seus soldados; sua trupe de gladiadores; Lucilla e Gracchus. Commodus; adversários da arena; soldados de Roma.
*Testes: Batalha contra os bárbaros; luta contra seus algozes; luta na arena no Cartago; re-enceação Batalha do Cartago; invicto Tigris (e tigres). Maximus obtém a glória na arena, a arma mágica.
*Aproximação da caverna oculta: Revela-se ao inimigo na arena; Enfrentar Commodus; vingar-se.
*Provação suprema: Batalha contra Commodus na arena do Coliseu de Roma. Com Maximus ferido mortalmente.
*Recompensa: Liberdade, Vingança.
3º Ato – Resolução *Caminho de volta: Para a família no paraíso / Sonho.
*Ressurreição: A própria morte; liberdade para seus aliados e Roma. Morte de Commodus, fim do mal.
*Retorno com o elixir: Liberdade / Paraíso.

Análise Multiperspectiva do filme “Gladiador”

Baseada na obra de Douglas Kellner “A Cultura da Mídia”. Análise de Pedro Luiz, Mario David, Celso Agostinho e Gabriel Lages. Texto de Pedro Luiz

“Crítica:

  • Teoria Crítica (Escola de Frankfurt)

Multiperspectiva:

  • Classe: conflitos sociais
  • Ideologias (esconde algum interesse): étnicos, econômicos
  • Sexo: feminismo, prostituição
  • Raça: conflitos étnicos”

(Dimas A. Kunsch, 29 de Setembro de 2007 in Aula de Narrativas de Ficção, Faculdade Cásper Líbero).

Contexto histórico-ideológico

Épico romano, o filme Gladiador além de associar a glória do Império Romano ao próprio Império Norte-Americano, glorifica a si próprio, glorifica a produção hollywoodiana. O filme é praticamente um replay de antigos épicos romanos holywoodianos, a associação ao filme “Ben Hur” é clara, tanto que muitos se referem ao ator Russel Crowe, protagonista do Gladiador, como o “novo Shalton Heston”, protagonista de Ben Hur. Diversos aspectos de antigos clássicos como Ben Hur e Spartacus reaparecem de forma idêntica em Gladiador. Em termos de produção cinematográfica é como se Hollywood dissesse para nós: “vocês se lembram daqueles épicos que fazíamos antigamente e eram grandes sucessos? Pois vejam o que nós fazemos agora, temos certeza de que vocês gostarão”. E nós realmente gostamos, Hollywood prova que as velhas fórmulas de sucesso do passado ainda funcionam dentro da roupagem atual da linguagem cinematográfica, não só funciona como é premiada, tanto pela própria academia que a reconhece através de seus Oscars, quanto mundo afora, sendo assistido, aplaudido e recebendo diversos prêmios por todo globo terrestre.

No contexto histórico do filme, o ano de 2000, os Estados Unidos estão sob a presidência de Bill Clinton, o último presidente democrata norte-americano nos últimos 26 anos. No campo de batalha, vem de uma vitória arrasadora sobre seu último grande adversário, o Iraque de Saddan Hussein, que invadira o Kwait na conhecida “Guerra do Golfo”. Os Estados Unidos também acabara de subjugar a Sérvia-Jugoslávia, devido a este país estar utilizando praticas de extermínio em sua particular guerra étnica que opunha os eslavos (sérvios) aos albaneses, na como ficou conhecida, “Guerra do Kosovo”, a face do inimigo nesta guerra era o líder sérvio-jugoslavo, Milosevic. Ou seja, durante a criação desse filme, lançado em 2000, o Império Norte-Americano lutava por seu ideal de liberdade e justiça na Sérvia depois da supressão do inimigo árabe, o Iraque. Depois de ser criticado na era pós-Vietnã, o imperialismo norte-americano busca reerguer-se frente aos novos inimigos “bárbaros”, os eslavos brutos exterminadores, da mesma forma que o Império Romano no filme Gladiador se reerguia frente às invasões bárbaras germânicas com o Imperador Marcus Aurelius no ano de 180, sob a idéia de que “lutar por Roma é lutar por uma idéia”. Não seria lutar pelos Estados Unidos, lutar por uma idéia? Sim, a idéia da justiça, democracia e liberdade. A justiça e a liberdade são as idéias que o escravo-gladiador Maximus irá buscar e lutar por, nesse épico hollywoodiano. A democracia aparece quando Maximus mata o Imperador e tirano Commodus, e o poder de Roma fica com o senado, tornando Roma uma República (como os Estados Unidos que é uma república), tornando Roma mais democrática. Em suma, apesar da “máscara” norte-americana, assim como fora a romana séculos atrás, já terem ambas “caído”, o ideal da liberdade, que passa pelo modus-vivendi ocidental capitalista, como fora o ideal de Roma e sua “civilidade” no passado, é algo que ainda sobrevive e se vale a pena lutar.

Entendemos dessa forma, que o ideal transmitido pelo filme Gladiador, vem de encontro aos ideais norte-americanos que, assim como Roma promovia a expansão de seu Império sob o ideal romano, hoje os Estados Unidos promovem o seu imperialismo através dos seus ideais de democracia, justiça e liberdade. É como se o filme dissesse que a questão imperialista é algo aceitável, desde que seja construída por um ideal justo, ou naquele jargão popular que diz “os fins justificam os meios”. É claro que tal mensagem só poderia partir do conquistador, algo que aparece no filme quando um oficial do General Maximus, Quintus, diz momentos antes da última batalha sobre os derrotados bárbaros germânicos que recusavam a render-se: “um povo deveria saber quando está conquistado”. A mensagem subliminar aqui é “não adianta lutar contra nós americanos, nós já vencemos a guerra”. Sim, venceram a guerra contra os comunistas, os árabes e os eslavos, e o capitalismo agora praticamente não possui mais fronteiras, existem poucos que recusam a render-se pois não sabem que já estão conquistados, e é contra esses poucos que o ideal da liberdade busca enfrentar.

Supremacia Branca

A questão das raças que aparece no filme também nos leva a identificar Roma e todo o seu glamour, como sendo o próprio Estados Unidos da América do Norte. Sob esse prisma, o império romano representa – incluindo todos os personagens que aparecem no filme Gladiador que são brancos, o elenco do filme que é branco; a vitória de um romano como o herói Maximus e a glória de Roma –, o triunfo e a glória da raça branca. Porém existe uma única exceção, o negro Juba (Djimon Hounsou), que é companheiro de Maximus, outro escravo-gladiador de Próximo. É praticamente o único negro que aparece durante o filme e possui um papel coadjuvante. Juba é o escravo amigo de Maximus, aquele que ouve as confidências do herói sobre sua família, é também um excelente guerreiro, um dos poucos que sobrevive e é libertado por Maximus ao final do filme. Apesar do papel secundário, Juba vive simbolicamente toda a história dos negros: é escravizado pelos brancos, depois luta ao lado dos brancos e por estes é libertado, passa então a lutar pelos ideais dos que libertaram-no . A liberdade que Juba ganha ao final do filme é mais uma maneira de reforçar o ideal que entendemos como a palavra-chave deste filme – a liberdade – que na figura deste dócil, gentil e prestativo negro, é então estendida à toda raça negra.

A Questão Sexual

Masculinização é um termo que pode ser aplicado ao herói deste filme, Maximus. Isso fica claro na descrição dos adjetivos mencionados no tópico “O Herói” deste trabalho (página 3). Maximus glorifica a força do homem dentro de um contexto histórico romano, uma época de domínio do homem sobre a mulher. Assim fica claro que a questão ideológica em torno da liberdade feminina é contestada nesse filme. Enquanto o herói, Maximus, utiliza todo o vigor masculino, sua força física, para atingir seus objetivos e fazer justiça, o vilão do filme, Commodus, é visto como fraco e submisso à sua irmã, ainda é mostrado como um doente que a deseja sexualmente. A irmã de Commodus é apaixonada por Maximus, o que grandifica mais ainda a figura masculina do herói, que ao longo filme é mostrado sendo agarrado e beijado por mulheres fãs dos gladiadores. A mensagem é simples e clara: quem é do bem, quem triunfa, é adorado pelas mulheres, as tem sob seus pés; quem é do mal, é submisso às mulheres e desprezado por elas.

O fato de Commodus desejar incestualmente sua irmã, também coloca em cheque a liberdade feminina dentro de um mundo onde o feminismo e a liberdade sexual são fatos atuais no pós-modernismo. O sexo aparece em o Gladiador da mesma forma que no mundo pós-moderno que romaniza as práticas sexuais, a luxuria incestuosa de Commodus, é uma menção direta as luxurias do mundo atual, onde a liberdade sexual dos homens, mulheres e também dos homossexuais, ganha força dentro de um mundo ocidental-ortodoxo onde figura a tradicional instituição da família judaico-cristã, com seus ideais que se opõem as essas novas práticas sexuais libertinosas romanas, vistas como luxúria dentro de seus dogmas religiosos ocidentais. Vale lembrar que o contexto histórico desse filme se passa numa época onde o Império Romano ainda perseguia os cristãos, então nenhuma das práticas sexuais que aparecem no filme podem ser associadas diretamente ao mundo cristão. A questão do homossexualismo aparece quando o senhor de Maximus (quando este se torna escravo-gladiador), Proximo, pergunta se o herói precisa de alguma coisa, uma garota ou um garoto (Maximus não precisava de nenhum dos dois). A mensagem diz para nós que homossexualismo é uma prática antiga, romana inclusive, e não era tanto um taboo antigamente como imaginávamos, sendo tratado aqui pelos antigos romanos, como algo simples, corriqueiro e que faz parte do dia-a-dia. A romanização sexual do mundo pós-moderno então, é associada diretamente a liberdade sexual feminina e homossexual, nos elementos sutis que aparecem no filme, mas talvez Hollywood esteja apenas buscando contemplar todos os públicos em suas produções, ilustrando parte do mundo pós-moderno em seus filmes. A própria figura de Commodus, totalmente submissa a sua irmã, suas lamúrias que soam como as de um menino mimado, também colocam em cheque a sua masculinidade, sendo ele associado ao mal, temos uma associação entre o mal e a luxúria e o hossexualismo, o mal e a submissão do homem perante a mulher, o mal e a emasculação do homem enfim. Quando o bem vence, Maximus mata Commodus, temos a vitória do bem sobre esses fatos que emasculam o homem no mundo atual, ou seja, mais uma vez o homem está por cima e a mulher lhe fica submissa. Não só o homem se sobrepõe à mulher, também os ideais judaicos-cristão o fazem através da figura de Maximus, que é fiel a sua esposa e sua família mesmo após a morte deles. Se observarmos o herói Maximus, vemos que ele não tem nenhuma das características libertinosas que aparecem durante o filme, não cede a nenhuma tentação, nenhum pecado capital lhe pode ser associado: gula, ambição, inveja, preguiça, orgulho e luxúria. Até mesmo o ódio, único pecado a qual Maximus sucumbe quando deseja vingar-se de Commodus que matara sua família, é algo que aparece muito sutilmente no filme, embora não possamos desvincular o pecado do ato vingativo, este não soa como pecado, soa mais como “justiça”, mesmo que feita pelas próprias mãos. Até quando Maximus executa sua vingança, ele ainda o faz sob a forma de um condenado-gladiador que é obrigado a lutar contra seu inimigo e em desvantagem, Maximus não executa a sua vingança na forma de um simples assassinato, o faz dentro da arena onde impera a lei da sobrevivência. Entre os pecados mencionados, vemos que Commodus possui diversos deles, a vitória de Maximus sobre Commodus então, é a vitória dos ideais judaico-cristãos sobre o pecado, sobre o mal, a qual estão associados às novas praticas sexuais do mundo atual e a própria liberdade feminina.

Triunfo Capitalista

O triunfo individual de Maximus, simboliza a vitória solitária do homem dentro da sociedade capitalista, que privilegia as iniciativas do individuo, do trabalhador, do proletariado em busca de conquistas em sua vida, conquistas que são associadas à liberdade, a liberdade de consumo. O ideal capitalista, sob a bandeira da liberdade, nos diz que somos livres para conseguirmos tudo que quisermos, desde que lutemos por nossos sonhos. Essa é a luta, onde Maximus atinge o fundo do poço, virando um escravo, ou seja, perde a sua liberdade, e depois vai reconquistá-la lutando na arena do Coliseu de Roma, chegando a mudar os rumos de um império. Essa trajetória heróica, individualista e ainda sob a bandeira da liberdade como colocamos, nada mais é que a realização do sonho americano, o ideal capitalista, que nos mostra na figura de Maximus, um empreendedor, um líder que mobiliza pessoas em torno de seu ideal libertário, que guia suas ações ao triunfo em seus objetivos libertando a si mesmo e a seus companheiros. As ações de Maximus são as ações do homem moderno que precisa lutar e batalhar sozinho seu espaço na sociedade capitalista, onde o seu ideal nos diz que qualquer um que assim o faça, irá conquistar seus objetivos. O sonho americano é um tema que aparece em vários filmes, poderíamos dizer que é típico de Hollywood, uma fórmula conhecida e que sempre é recebida com sucesso, um sucesso reconhecido pela própria Hollywood através do Oscar, que premiou Gladiador como melhor filme e outros filmes de mesma temática no passado, como Rocky, um Lutador (1976), Ben Hur (1959), Forrest Gump (1995) e muitos outros que foram indicados pela academia e ganharam diversos prêmios. Essa fórmula aparece em vários filmes onde o herói empreende sua jornada sozinho, triunfando contra o mal, aparece em vários clichéts na luta entre mocinhos e bandidos, tema deste e de muitos outros filmes hollywoodianos.

A Ética do Gladiador

Nos livro de ética de Álvaro Valls, “O que é Ética”, o autor aponta nos estudos do filósofo Platão da Grécia antiga, quais são os quatro principais valores do homem:

"Nas pesquisas efetuadas dialeticamente (...) Platão vai organizando um quadro geral das diferentes virtudes. As principais virtudes são as seguintes:

  • Justiça (dike) a virtude geral, que ordena e harmoniza (...)
  • Prudência ou Sabedoria (frônesis ou sofía) é a virtude própria da alma racional, a racionalidade (...)
  • Fortaleza ou valor (andréia) é a que faz com que (...) o prazer se subordine ao dever;
  • Temperança (sofrosine) é a virtude (...) equivalente ao autodomínio, à harmonia individual

(1994: 27)”.

Lembramos que no filme "Gladiador", na cena que o imperador Marcus Aurelius conta ao filho Commodus que passará o Império à Maximus, Commodus refere-se à uma carta que o pai lhe havia escrito, onde comentava quais eram as quatro virtudes do homem. As quatro virtudes mencionadas por Marcus Aurelius eram exatamente as citadas acima, que Commodus reconheceu não possuir. Com o poder sendo passado para Maximus, subtende-se que o Imperador enxergava nele essas quatro virtudes (e ele de fato as tinha). A ética de Maximus, o Gladiador, é exatamente a ética de Platão.

Como colocamos anteriormente, liberdade, é uma das palavras-chaves desse épico cinematográfico, sendo ela tomada como um valor ético, pode ser somada aos demais valores acima mencionados, como a ética do filme Gladiador.

Referências

_________. Crítica “O Gladiador” in Jornal Folha de S. Paulo, 24/05/2000.
ADORNO, T. e HORKHEIMER, M. Dialética do esclarecimento. Rio de Janeiro: Zahar, 1985.
CAMPBELL, Joseph. O Herói de Mil Faces. São Paulo: Pensamento, 1995.
Gladiador. Dir. Ridley Scott. E.U.A: Universal Pictures, 2000.
IKEDA, Marcelo. Gladiador, um filme político in http://www.geocities.com/Hollywood/Agency/8041/gladiado.html, 22/05/2007.
KELLNER, Douglas. A Cultura da Mídia. Bauru-SP: EDUSC, 2001.
RINCÓN, Luiz Eduardo. A Jornada do Herói Mitológico in II Simpósio de RPG & Educação. São Paulo: Uninove, 22 à 24/09/2006.
VALLS, Álvaro. O que é Ética? São Paulo: Brasiliense, 1994.
VOGLER, Christopher. A Jornada do Escritor. Rio de Janeiro: Ampersand, 1992.
WIKIPEDIA, A Enciclopédia Livre. http://pt.wikipedia.org/wiki/Brasil, Outubro de 2007.

Notas

[1] O Mundo comum de um guerreiro como o General Maximus é a Guerra. Porém Maximus, após inúmeras glórias, quer voltar para a casa onde esposa e filho o esperam, há mais de dois anos o General está afastado de sua família. Para Maximus esta era sua última batalha e, estar junto a família, a recompensa máxima.
[2] Como em diversos outros filmes de guerra norte-americanos que mostram a devoção dos soldados ao presidente da república.
[3] A “Sociedade do Espetáculo” da Roma antiga, a qual o falecido Imperador Marco Aurélio atribuía a decadência da “glória de Roma”, embora não o tenha dito explicitamente.
[4] Mano a mano, ou um contra um.
[5] Mais um autêntico clichêt hollywoodiano.
[6] Commodus queria reforçar sua imagem perante a “opinião pública” para que essa sustentasse o seu golpe contra o senado, como baseava sua política no pão e circo, não poderia atentar contra uma celebridade da arena, se não estaria atentando contra a opinião pública e perdendo força política. O filme faz uma alusão a um caso de “manipulação da opinião pública” em pleno século II.
[7] Em outro clássico clichêt.
[8] Regime mais democrático, assim como é nos E.U.A, uma república democrática.
[9] Liberdade é a palavra-chave do terceiro ato dessa estória. Assim como “Roma”, “Liberdade” é uma “idéia”. Uma idéia norte-americana.

Personal tools