Negroponte e a máquina de telecomunicar
Origem: WikiPos, a enciclopédia livre.
NEGROPONTE E A MÁQUINA DE TELECOMUNICAR. (dez2006)
Sérgio Amadeu da Silveira
A maioria das pessoas usam os computadores como intermediários da comunicação. Esta impressionante máquina, nascida das idéias de inúmeras gênios, entre as quais destaco Alan Turing, evoluiu sem abandonar suas características anteriores. O fato do computador ser uma ferramenta para os jovens trocarem mensagens instantâneas, acessarem suas comunidades no Orkut e falarem pelo Google Talk, não impediu que ele continuasse a ser utilizado para realizar operações complexas, construir algoritmos, fazer simulações ou executar cálculos estocásticos.
O avanço do wireless ou comunicação sem fio e a expansão dos laptops geraram um ambiente de mobilidade em que várias tecnologias estão sendo testadas e aplicadas com relativo sucesso. Uma delas viabiliza a comunicação entre computadores sem a necessidade de uma infra-estrutura local de telecomunicações. Trata-se das tecnologias wireless que utilizam a arquitetura mesh ou em malha. O computador assim entraria em uma nova fase e ganharia mais uma atribuição. Nasceu como máquina de calcular e processar que se tornou uma máquina de comunicar e, agora, afirma-se como máquina de telecomunicar. Como assim?
Um dos grandes méritos dos professores Nicholas Negroponte e Seymour Pappert foi o lançamento do projeto OLPC (One Laptop per Child ou Um Laptop por Criança). Além de sua proposta gerar uma mobilização na indústria de hardware para pensar soluções que reduzirão os preços onde alegavam ser impossível, o conhecido Laptop de 100 dólares é uma completa revolução na concepção de uso do computador. Trata-se de uma máquina de telecomunicar.
Cada Laptop terá um mecanismo para a transmissão, recepção e retransmissão de dados. Cada máquina será uma pequena torre de retransmissão do sinal das demais. Assim, quem estiver na zona norte da cidade e precisar falar com a professora que está na sul, enviará a mensagem que irá saltando de computador em computador até chegar a seu destino. O computador do professor Negroponte tem um mecanismo que permite retransmitir o sinal de outros computadores mesmo quando estiver desligado. É semelhante ao que acontece com o vídeo em nossas casas. Quando apontamos o controle remoto, ele recebe o sinal e liga automaticamente. Genial.
Sem dúvida, o laptop proposto pela equipe de Negroponte e Pappert viabilizará a idéia do computador como máquina de telecomunicar. Poderemos ligar diretamente máquina com máquina, sem necessidade de recorrermos as operadoras de telefonia, construindo uma rede completamente descentralizada, uma rede mesh ou malha, em português. As crianças usando o laptop não terão custos de conexão. Mesmo quando a cidade não estiver conectada à Internet, as pessoas poderão localmente continuar trocando suas mensagens e construindo suas práticas colaborativas. Os servidores de rede das escolas poderão continuar a oferecer seus conteúdos, educativos e culturais. Grupos de ativistas e internautas locais poderão relatar suas experiências e portar sua produção simbólica para a web, sem custos locais de conexão.
Os professores serão chamados a pensar uma educação em rede substituindo o formato hierárquico e pouco estimulante que é empregado até hoje. Oficinas de construção de conhecimento compartilhado serão possíveis, se os professores forem envolvidos nesse processo de emancipação e revolução educacional. O uso da comunicação em redes descentralizadas somado a um processo mobilizador dos nossos educadores e das nossas escolas pode gerar um desenvolvimento humano e cultural jamais visto.
Quem não gosta disso? Os grupos empresariais da sociedade industrial temerosos que o Laptop proposto por Negroponte irá canibalizar seus negócios. Aqueles que querem limitar as funções das placas de wireless somente à transmissão e recepção de dados, impedindo a retransmissão de sinais. Quem mais? O monopólio mundial de software para desktop que quer evitar desesperadamente que as crianças usem software livre e deixem de ser aprisionadas ao seu produto. Além de trabalhar com o conceito de uma rede completamente P2P (peer-to-peer), o computador de Negroponte, Pappert, Bender, Cavallo e tantos outros, pode incentivar as crianças e adolescentes, com vocação, a acessarem o código-fonte aberto dos softwares nele embarcados. As mentes proprietárias articulam-se desesperadamente para bloquear a liberdade para o conhecimento tecnológico. Quem irá vencer? Não sabemos, mas a luta será intensa.
