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FACULDADE CÁSPER LÍBERO 
COORDENADORIA DE PESQUISA E PÓS-GRADUAÇÃO
MÍDIA, PODER E ÉTICA
PROF. DR. LAURINDO LEAL FILHO 
 
ÉTICA NO JORNALISMO 

Pedro Luiz de Oliveira Costa Bisneto
RA- 07.000.979
pbisneto@uol.com.br
2007


Conteúdo

Introdução

Ao apresentarmos o seminário sobre Ética no Jornalismo , abandonamos um pouco a abordagem científica e nos deixamos levar pelo mundo mágico do cinema, onde utilizamos algumas frases de filmes e ainda, três seqüências de duas outras películas, com objetivo de tecer reflexões sobre o tema. As duas películas apresentadas contam a história de dois super-heróis, o Homem-Aranha e o Super-Homem, que se popularizaram através das histórias em quadrinhos até se projetarem na grande tela do cinema, tornando-se dois dos maiores blockbusters do gênero. Além do que foi analisado através das cenas que vimos nesses filmes, aqui vale falar um pouco mais da sua relação direta com a questão, tanto da ética, quanto do jornalismo.

Voltando para o mundo cartesiano, daremos nossos primeiros passos em direção ao embasamento teórico da questão ética, através do livro de bolso “O que é Ética?”, do professor Álvaro Valls. Consultamos ainda alguns artigos de outros autores que discutem ética e comunicação para nos aprofundamos um pouco mais nessa questão e assim, confrontá-la com o jornalismo, onde utilizaremos dois livros básicos, Noticias do Planalto do jornalista Mario Sergio Conti – que não é exatamente tão cartesiano assim – e Jornalismo e Política da estudiosa Vera Chaia, além de citações de outras obras e teóricos.

Esse trabalho também aborda reflexões sobre diversas implicações políticas em cima das leituras mencionadas acima, da cobertura da imprensa no período da eleição e da presidência de Fernando Collor, e da Câmara de Vereadores de São Paulo nos período das prefeituras de Luiza Erundina, Paulo Maluf e Celso Pitta. Vale enfatizar que este estudo se trata de uma investigação preliminar sobre o tema proposto que, se tratando de uma questão tão delicada quanto a Ética, levantará mais dúvidas do que respostas, o que acreditamos ser natural quando se aborda uma temática tão profunda como esta.

Homem-Aranha e Super-Homem

A idéia de utilizar esses dois super-heróis baseia-se no fato de ambos remeterem a questões éticas diretamente ligadas ao jornalismo. Em primeiro lugar, os ideais de ambos expressam diversos valores éticos, representam ideais humanitários, libertários e do Bem, tais como justiça, igualdade, universalidade, de serviência à coletividade e uso responsável do poder, ou do não uso do poder como um obstáculo ao destino da humanidade e dos interesses universais – o uso positivo da liderança – até a questão cristã da opção pelo Bem preterindo o Mal também aparece nesses heróis. São ideais que fazem desses personagens, a figura do herói que representam, figura que, sem adentrarmos numa profunda análise mitológica, reconta e mantém viva no transcorrer de toda história humana, diversos ideais, muitos deles, éticos. São valores que cerceiam e se conectam também à ética na mídia e o seu poder comunicacional, a mídia como o 4º poder, uma entidade do mundo atual. Outro fato importante é tratarmos de ideais que não se escondem em livros teóricos ou dentro de academias apenas, mas que fazem parte do saber comum, do senso comum, são ideais que se propagam dentro da cultura de massa. Valores aspirados e vividos pela sociedade atual através de diversas formas, sendo os quadrinhos e o cinema algumas delas. Nesse sentido, o cinema é uma mídia que sempre apresentará enquanto produção cultural, diversas questões relativas à ética nos mais diferentes aspectos imaginários (tanto em seus filmes, quanto na própria questão da indústria cinematográfica, que implica numa grande reflexão, além de ética, também ideológica).

Não só a ética relaciona a presença desses super-heróis neste paper, mas também a falta dela. Os alter-egos do Homem-Aranha e do Super-Homem, Peter Parker e Clark Kent respectivamente, ambos trabalham em jornais, o primeiro como fotógrafo (no Clarín Diário) e o segundo como repórter-jornalista (no Planeta Diário). Ambos conseguiram emprego em seus jornais tirando vantagem de seus super-poderes, o que pode ser considerado anti-ético. O fato de ambos heróis escolherem trabalhar em jornais também questiona o mito do jornalista e o seu papel dentro da sociedade. A cobertura desses jornais em cima da vida desses heróis também traz reflexões que tangem o escopo desse trabalho, até poderia ser o foco de um estudo apenas neste ponto. A figura do empregador de ambos também vai fazer parte da vida desses heróis e seus alter-egos, os seus editores-chefe, que são os donos desses jornais. A questão da ética desses editores ou da falta dela – especialmente do chefe de Peter Parker, J.J.Jamenson, que perseguirá o Homem-Aranha durante toda a sua vida – é constantemente abordada nas estórias desses personagens, servem de estereótipos que nos mostram características diretamente ligadas ao mundo do jornalismo impresso e do mass media em geral, trazem valores e condutas ligadas à ética, que casam com muitas das reflexões abordadas no decorrer deste trabalho.


Errata

Durante o seminário apresentado, algumas gafes foram ditas, vale o espaço aqui então para corrigi-las. A primeira errata foi ao comentar a cena do filme Homem-Aranha, dissemos que o jornalista J.J.Jamenson era dono do jornal Planeta Diário, quando na verdade se trata do jornal Clarín Diário. O jornal Planeta Diário é onde trabalha Clark Kent, o Super-Homem. Esquecemos também de comentar, em cima desta mesma cena, a ênfase na mudança de postura do editor J.J.Jamenson, que a princípio achava uma afronta a presença do Homem-Aranha na sua primeira página, até quando soube que tal edição tinha esgotado as vendas, então o editor pediu que se publicasse outra foto do Aranha na primeira página da edição seguinte do jornal. Cena que mostra a importância do editor na questão financeira das empresas de mídia que, além do que comentamos, busca valorizar o conteúdo mais “vendável”.

Erramos também quando num dado momento da apresentação, nos referimos a um editorial de Frias Filho – da Folha de S. Paulo – com uma carta endereçada ao Presidente Fernando Collor, onde atribuímos ineditismo ao fato deste editorial ter sido publicado na capa do jornal. Evidentemente se trata de um fato inédito quando nos referimos ao contexto mais atual da publicação de editoriais em jornais como a própria Folha, estes, hoje encontrados até na penúltima capa, eram então geralmente publicados na página dois. No máximo, poderíamos dizer, se tratar de um fato inédito dentro do contexto mais democrático do Brasil após o regime militar, após o período da censura. Atribuir categoricamente a publicação de um editorial de capa como um “fato inédito”, seria ignorar um amplo período da história do jornalismo, quando neste predominava o cunho opinativo e os editoriais eram costumeiramente divulgados na primeira página. Seria ignorar, por exemplo, os brilhantes editoriais de Assis Chateaubriand, quando ele se dirigia à figura do Presidente Getúlio Vargas como “ditador”.

Quando mencionamos alguns casos de investigação jornalística narrados na obra de Mario Sergio Conti, onde comentamos que poderia ter acontecido um suposto “suborno” para obtenção das informações, faltou cogitar outras possibilidades para tais fatos narrados, tais como troca de informações por interesses e articulações políticas, um vazamento proposital de informação à imprensa como uma manipulação política , enfim, outras possibilidades além de suborno, ou mesmo aliciamento das fontes dos furos jornalísticos narrados. Ou será que eles realmente foram fruto apenas de atitudes patrióticas e democráticas no que tange o direito ao acesso à informação?


O Que é Ética?

Resenhando o livro de Álvaro Valls em um parágrafo, poderíamos dizer que a obra traz excelentes referências para quem busca a compreensão teórica da ética, ou ao menos iniciar uma reflexão sobre a questão. O autor aponta quais são as principais correntes de estudos da ética, sua evolução histórica, iniciando na Grécia Antiga, passando pela era medieval, o Iluminismo e chegando ao cenário mais atual, da era moderna e da contemporaneidade. Nesse caminho, vários importantes pensadores e suas obras são mencionados, mostrando o parâmetro dos valores e ideais da reflexão ética.

Em princípio, Valls vai trabalhar em cima da questão epistemológica da ética, onde coloca: “A ética (...) é entendida como um estudo ou uma reflexão, científica ou filosófica, e eventualmente até teológica, sobre os costumes ou sobre as relações humanas”. O autor vai colocar em destaque a questão da ética, não só como um estudo ou reflexão, mas como parte da vida e das ações cotidianas do homem: “Mas também chamamos de ética a própria vida, quando conforme os costumes considerados corretos. A ética pode ser a própria realização de um tipo de comportamento (1996: 7)”. Segundo o autor, existem dois campos de estudo da Ética: “(...) num, os problemas gerais e fundamentais (...) e no segundo, os problemas específicos”. Mas, apesar de diferentes campos de estudo, novamente, Valls destaca a importância da ética inserida no cotidiano do homem, “pois na vida real eles não vêm assim separados” (1996: 8). Sendo diretamente associada à vida cotidiana, a reflexão ética logo leva o homem a diversos questionamentos em cima de suas atitudes e comportamentos, assim, no mundo atual, qualquer um, como o próprio autor, poderia colocar a seguinte questão, uma das mais importantes e pertinentes dentro do mundo neo-liberalista: “As questões da ética aparecem a cada dia (...) logo poderíamos nos perguntar se, num país capitalista, o princípio do lucro poderia ou deveria situar-se acima ou abaixo das leis da ética”. Acreditamos que, evidentemente, o princípio do lucro deveria situar-se abaixo das questões éticas, o que, infelizmente, como veremos mais adiante, não tem sido a regra quando analisamos a questão da ética jornalística.

Dentro dessa reflexão, Valls destaca que a ética é um conceito muito singular à moral, “(...) a palavra moral é sinônimo de ética, acentuando talvez apenas o aspecto de interiorização das normas” (1996: 17). Mas é preciso tomar cuidado com essa interpretação, o estudioso Clóvis de Barros Filho , acredita que ética e moral não são sinônimos nem antônimos, possuem diversos pontos comuns, mas respondem a diferentes questões: “A moral (...) responde (...) à questão: <o que devo fazer>’. Já a ética (...) responde à pergunta: <como viver (para ser feliz)?>” (BARROS, 2000: 9). A obra de Valls ainda destaca que os dois grandes nomes dos estudos éticos, cujos pensamentos margeiam esse campo, do grego antigo Sócrates (470-399 a.C.), e do alemão prussiano Kant (1724-1804).

Valores Éticos

Vamos aqui, apontar os valores éticos que são levantados na obra de Álvaro Valls. Mencionamos na nossa apresentação que a ética está atrelada e vai além da Lei. Sendo a lei uma norma, ela “nos diz como devemos agir. E se devemos agir de tal modo, é porque (...) também podemos não agir deste modo" (1996: 48). Como veremos no próximo parágrafo, a norma como uma imposição de conduta se torna moral, e não ética, como bem coloca o santo medieval "Tomás de Aquino (...) desse uma importância fundamental à consciência moral. (...) Aquela voz interior que nos diz que devemos fazer, em todas ocasiões, o bem e evitar o mal" (1996: 63). Dessa forma, nem a própria Lei poderia se colocar acima dos maiores ideais éticos, tais como o Bem, a liberdade, a universalidade e outros que veremos a seguir. A moral só pode surgir então, como um firmamento das práticas éticas, e não como imposição de normas, como eram as leis de Deus na Idade Média. Essas práticas éticas estariam balizadas pela razão na linha de pensamento do iluminista Kant, “(...) a moral é a racionalidade do sujeito (...) porque é dever, eis o único motivo válido da ação moral", e se assim não o fosse, então “legalidade e moralidade se tornam extremos opostos (1996: 20). Na linha de Kant, a filósofa e analista junguiana, Adriana T. Nogueira , coloca que, “A consciência moral caracteriza-se em sua origem como medo social e nada mais”, quadro típico da moral cristã medieval, ordenada pelas leis de Deus, assim, “A moral do ‘dever’ que culmina no imperativo categórico de Kant: <Age de tal maneira que possas ao mesmo tempo querer que a máxima da tua vontade se torne lei universal>”(NOGUEIRA, 2000: 41). A universalidade imposta, seria oposta ao conceito ético do universal como abordaremos mais adiante, dentro da própria filosofia kantiana.

Talvez o primeiro grande ideal ético que aparece, e que tão óbvio se parece, é a idéia do Bem, que já era um patamar desde a Grécia antiga. Platão (lembrando que foi este quem escreveu os pensamentos de Sócrates), dizia: "Os homens deveriam procurar, então, durante esta vida, a contemplação das idéias, e principalmente da idéia mais importante, a idéia do Bem" (1996: 25). A idéia do Bem traz em sua oposição, a idéia do Mal, que seria então, equivalente ao não ético, ao anti-ético. O Bem, para o filósofo dinamarquês Kierkegaard (1813-1855), seria uma escolha guiada pelo livre-arbítrio do homem, pois o “homem pode conhecer o bem e preferir o mal”. O Bem só pode ser alcançado a partir da livre escolha, jamais imposto, "(...) uma pessoa ética é aquela que age sempre a partir da alternativa bem ou mal (...) aquela que resolveu pautar seu comportamento por uma tal opção" (1996: 68), agir ético é negar o mal. O Bem é talvez o ideal ético mais aspirado desde a antiguidade, como enfatiza Valls: “Agir eticamente é agir de acordo com o bem (...) distinção levantada já há alguns milênios, parece continuar válida" (1996: 67). Segundo Adriana Nogueira, “O ‘Bem’ que a ética tradicional propõe é sempre um valor abstrato que (...) há de ser aplicado e realizado nas inúmeras e diversas situações do dia-a-dia. Mais uma vez ensina-se ex-cathedra o que é <certo>”, assim viveríamos sempre num grande dilema: “(...) na vida real, nos encontramos todos perdidos sem ter as coordenadas para um agir ético” (2000: 44). É na busca de como fazer o certo, onde aparece a agir ético. Como fazer o certo, seria optar pelo Bem.

Ainda na Grécia antiga, Platão também vai trabalhar os ideais do homem baseado na sua racionalidade, apontando quais são os quatro principais valores éticos do homem:

"Nas pesquisas efetuadas dialeticamente (...) Platão vai organizando um quadro geral das diferentes virtudes. As principais virtudes são as seguintes: Justiça (dike) a virtude geral, que ordena e harmoniza (...) Prudência ou Sabedoria (frônesis ou sofía) é a virtude própria da alma racional, a racionalidade (...) Fortaleza ou valor (andréia) é a que faz com que (...) o prazer se subordine ao dever; Temperança (sofrosine) é a virtude (...) equivalente ao autodomínio, à harmonia individual” (1994: 27).

O livre-arbítrio (livre escolha entre o Bem e o Mal), base da liberdade individual, leva-nos a outro ideal ético geral fundamental, o ideal da Liberdade. Segundo Valls, "Falar de ética, significa falar de liberdade" (1996: 48). Segundo Karl Marx, ética e liberdade estão intrinsecamente atreladas, uma não existe sem a outra, "Quando (...) não há mais espaço para a liberdade e conseqüentemente nem para a ética" (1996: 50). Outro grande ideal geral fundamental da ética é a universalidade, que ganhou grande força durante a era medieval, a era cristã, quando “A meta da vida moral foi colocada mais alto, numa santidade, sinônimo de um amor perfeito (...) a mensagem ética profunda da liberdade, do amor, da fraternidade universal" (1996: 37). Apesar de estarem submissas a ideais religiosos, os ideais da liberdade e da fraternidade universal ganham força com o cristianismo, e são base também dos pensamentos iluministas, que ao invés das leis de Deus seguem a razão do homem, e “(...) na sua linha kantiana, procura principalmente formas de procedimento prático que possam ser universalizáveis, isto é, uma ação moralmente boa é aquela que pode ser universalizável" (1996: 40). Mas a universalidade era balizada por outro ideal no pensamento de Kant, onde "(...) a igualdade entre os homens é fundamental para o desenvolvimento de uma ética universal" (1996: 19). O ideal ético da fraternidade universal, e da igualdade de Kant e do próprio cristianismo, também estão atrelados ao pensamento de Marx: "O marxismo é, no século XX, uma grande tradição de preocupações éticas, onde persistem elementos do cristianismo em forma secularizada" (1996: 39), o próprio socialismo é assim um ideal ético moderno, antes mesmo de ser um regime econômico ou político.

O Renascimento trouxe de volta a razão como condutora das reflexões éticas, neste momento, só a razão humana poderia guiar a questão ética, era o movimento iluminista. O exercício do pensamento racional para Descartes, era o uso do bom-senso, este julgaria o que é certo e o que é errado, incluindo o que seria a conduta ética do homem. Todo o período do Renascimento à Revolução Francesa teve grande influência nas questões éticas, Valls coloca que, "Com o Renascimento e a Idade Moderna, junto com a imprensa (...) a ética agora desenvolve principalmente a preocupação com a autonomia moral do indivíduo” (1996: 63), essa autonomia individual estaria atrelada à razão, e não mais a dogmas como na Idade Média. É quando surge e se desenvolve a burguesia e se constroem os Estados nacionais, “(...) entre os séculos XV e XVIII, a burguesia que começava a crescer (...) acentuou outros aspectos da ética: o ideal seria viver de acordo com a própria liberdade pessoal, e em termos sociais o grande lema foi o dos franceses: liberdade, igualdade, fraternidade” (1996: 45).

A criação do Estados nacionais vai trazer novas questões que concernem à ética, Hegel (1770-1831), coloca que “(...) a liberdade se daria na existência concreta, organizando-se num Estado” (1996: 65). A linha hegeliana vai colocar então, a liberdade atrelada a um novo conceito, o de cidadania, "A liberdade do indivíduo só se completa como liberdade do cidadão de um Estado livre e de direito. As leis, a Constituição (...) a própria prática de eleições periódicas aparecem hoje como questões éticas fundamentais" (1996: 74). Porém a cidadania atrelada ao Estado traz uma séria reflexão, ainda pertinente à contemporaneidade, talvez a grande crítica ao pensamento hegeliano:

"Os Estados que existem de fato são a instância do interesse comum universal, acima das classes e dos interesses egoístas privados e de pequenos grupos. Ou são de fato aparelhos conquistados por esses grupos, por uma classe dominante, que conquista o Estado para usar dele como seu instrumento de hegemonia, para a dominação e a exploração dos desprivilegiados?" (1996: 75).

Sinteticamente até aqui, montando uma lista de palavras-chave ligadas à ética, teríamos os seguintes valores: Bem, liberdade, igualdade, fraternidade, universalidade, o livre-arbítrio, a razão, bom-senso, justiça, prudência, fortaleza, temperança, socialismo, cidadania.

Ética e Comunicação

Diversas questões éticas concernem o papel da comunicação na sociedade atual. Algumas delas implicam nos maiores ideais éticos, o Bem e a Liberdade. Para o estudioso de Frankfurt Theodor Adorno (1903-1969), a opção pelo Bem está ficando subserviente a outros fatores:

"A questão atual é (...) saber se (...) os homens se sentem em condições de agir individualmente, isto é, agir moralmente. A massificação, a indústria cultural, a ditadura dos meios de comunicação e mesmo as ditaduras políticas são fenômenos que têm de ser analisados também nessa perspectiva, para sabermos até que ponto o homem de hoje ainda pode escolher entre o bem e o mal" (1996: 69).

Valls ratifica Adorno, atrelando a liberdade com a questão econômica e citando-o: “'Liberdade da economia nada mais é do que a liberdade econômica', ou, mais simplesmente: só não depende do dinheiro quem o tem de sobra" (1996: 51). E seguindo essa linha frankfurtiana, uma das questões da ética atual que põe em cheque o papel da comunicação é:

“(...) na massificação atual, a maioria hoje talvez não se comporte mais eticamente, pois não vive imoral, mas amoralmente. Os meios de comunicação de massa, as ideologias, os aparatos econômicos e do Estado, já não permitem mais a existência de sujeitos livres, de cidadãos conscientes e participantes, de consciências com capacidade julgadora. Seria o fim do indivíduo?” (1996: 47).

Adorno ainda “(...) chama a atenção para o fato de que hoje a ética foi reduzida a algo privado. (...) E se hoje a ética ficou reduzida ao particular, ao privado, isto é um mau sinal" (1996: 70). Esses questionamentos éticos aqui colocados, dos mais gerais aos mais específicos, seria onde aparece também o jornalismo (que é mantido por empresas privadas na maioria dos casos), e tem o seu próprio código de ética. Valls então, questiona o próprio valor do noticiário:

"(...) valeria a pena analisar a ótica e a sintaxe da comunicação que aparecem (...) nos noticiários atuais (...) a lógica simples do 'e', da adição pura e simples (...) este tipo de comunicação (...) não favorece o despertar de uma consciência eticamente mais crítica (...) reforça a indiferença e o sentimento de impotência do espectador" (1996: 77).

Essa sintaxe do jornalismo atual (informativa) teria mudado muito de seus primórdios da imprensa (opinativa), teria atrofiado a capacidade analítica das massas, as questões éticas assim, teriam desaparecido. Tal advento vai de encontro com os estudos do alemão Jürgen Habermas, que questiona o desaparecimento do espaço público na sociedade atual, fato vinculado ao papel dos meios de comunicação atualmente, e que vão além da imprensa:

"Assim, o rádio e a televisão podem ser muito mais ditatoriais do que o telefone, o qual, como as antigas cartas, possui uma forma mais dialogal. Isto não significa que aqueles, como meios de comunicação, não podem ser postos a serviço da democracia (...) na medida em que a informação também é uma forma de poder e como tal, se bem distribuído, de favorecer as relações éticas entre os homens" (1996: 77).

Habermas coloca muito claramente que a informação é uma peça chave para a conscientização ética, assim, o jornalismo tem papel crucial nas questões que concernem à ética na sociedade atual, e que passam pelo noticiário, a informação e cobertura dos fatos, a escolha de pautas e fontes, e pelos próprios jornalistas. Ao jornalismo, talvez uma das grandes questões éticas, seja a levantada por Valls, até onde a construção de linguagem informativa e imparcial da imprensa pode ser ou não considerada ética?


A Questão do Jornalismo

Na obra “Jornalismo e Política”, Vera Chaia faz um estudo sobre a cobertura da grande mídia impressa paulistana, analisando e catalogando as notícias políticas desses jornais na Câmara Municipal de São Paulo, durante as legislaturas da prefeita Luiza Erundina (1989-1992) e do prefeito Paulo Maluf (1993-1996). Ela ainda faz uma análise da cobertura das notícias da imprensa em cima do escândalo da “Máfia dos Fiscais”, que estourou durante a prefeitura de Celso Pitta (1997-2000).

A análise das notícias políticas feita por Vera é baseada em alguns conceitos, um deles de Shaw , intitulado agenda-setting: “Em conseqüência da ação dos jornais, da televisão e dos outros meios de informação, o público sabe ou ignora, presta atenção ou descura, realça ou negligencia elementos específicos do cenário público” (2004: 10). Tal conceito, segundo Vera, parte do “(...) pressuposto básico (...) é que, se os indivíduos não possuem um repertório próprio sobre um determinado tema, eles recebem esses conhecimentos e assimilam a realidade social por meio do prisma dos mass media” (2004: 11). A questão seria: quais são esses prismas e como são construídos?

O “prisma” do jornalismo na cobertura política seria o critério de seleção e construção das notícias e informações. É o que comenta Vera (apud Silva) , “Os critérios de seleção das notícias, evidentemente, variam de acordo com um sem-número de valores”. E quais seriam esses valores? Os critérios de seleção das notícias “(...) prioriza determinadas notícias segundo critério dos gatekeepers que atuam neste meio de comunicação” (2004: 11). O processo do gatekeeper é, segundo Vera, “(...) um processo complexo de elaboração, envolvendo repórteres, editores, proprietários dos jornais, políticos, lobbies, que influenciam e condicionam a inclusão ou exclusão de determinadas matérias. As fontes que irão dar credibilidade às matérias também são selecionadas a partir de critérios estabelecidos pelo editor e, em muitos casos, pelo dono do jornal” (2004: 11). Para sintetizar então a idéia do agenda-setting, Vera aponta os estudos de Fernando Antonio Azevedo , que diz:

“(...) a idéia implícita na noção do agenda-setting é a de que: (1) a mídia (...) define quais são os temas, acontecimentos e atores (objetos) relevantes para notícia; (2) (...) estabelece uma escala de proeminência entre esses objetos; (3) (...) constrói atributos (negativos ou positivos) sobre esses objetos; (4) há uma relação direta e causal entre as proeminências dos tópicos da mídia e a percepção de quais são os temas (issues) importantes num determinado momento histórico” (2004: 12).

Em outras palavras, a mídia define de que e de quem vai falar e como vai falar, determinando quais informações e de que forma o público terá acesso a elas. Com essa noção colocada, Vera vai encontrar nos estudos de Kleinnijenhuis e Rietberg , alguns modelos básicos de agenda-setting, que seriam: Bottom-up: onde a mídia exerce um papel de comunicação entre políticos e público, não sendo formadora de opinião; Top-down: a elite política determina o agendamento dos temas tratados pela imprensa; e Mediacracy: a mídia influi na agenda política e pública. Entendemos que o modelo botton-up vai de encontro com o ideal de como a imprensa se apresenta para o público, como sendo apenas um canal de comunicação entre este e a classe política, como veremos a seguir.

Os Ideais da Imprensa

O grande paradigma da imprensa atual é o jornalismo informativo que, como já comentamos, se opõe ao modelo opinativo que remota aos primórdios dos séculos XVII e XVIII. É justamente nessa linha que o jornalista Eugênio Bucci , se referindo ao cenário da Revolução Francesa no século XVIII, nos fala qual é o grande paradigma da imprensa, na época de quando teria surgido: “todo poder emana do povo, portanto o povo precisa ter informação para poder delegar poder, portanto a informação é um direito fundamental do cidadão”. Apesar deste paradigma ter nascido numa época em que o jornalismo era de cunho opinativo, Bucci vai questionar essa prática, colocando que: “O jornalismo de opinião no seu início durante o século XVIII era um veículo de propaganda das idéias iluministas e o jornalismo deve ser um veículo isento de informação para que o público chegue as suas próprias conclusões”, esse é então, o ideal do jornalismo informativo praticado hoje. Ideal que, como colocado no capítulo anterior, Álvaro Valls questiona com sendo alienador, impossibilitando a formação de uma consciência crítica em relação às questões éticas, entretanto, um debate sobre a questão de qual tipo de jornalismo seria melhor, opinativo ou informativo, não cabe neste momento, mas certamente merece uma reflexão mais profunda.

Fica claro então, que dentro do paradigma de que a informação é um direito de todos, esta deve ser isenta, e os veículos jornalísticos devem obedecer a essa isenção, é assim que a mídia se apresenta ao público, como nos diz Vera, “(...) a imprensa se apresenta como ‘independente’, ‘autônoma’ e ‘fiscalizadora’; a visão ‘apolítica’ dos meios de comunicação (...)” (2004: 15). E como vimos em seus estudos sobre o agenda-setting, a pauta das informações também pode ser um meio de se manipular os acontecimentos veiculados. Ainda dentro deste conceito, vemos que esses ideais apresentados pela imprensa nos remetem ao modelo bottom-up, onde esta se coloca como neutra na cobertura política.

A importância do agenda-setting, a questão da pauta jornalística, em relação ao paradigma do acesso à informação, está no fato da mídia ser considerada o meio de expressão da opinião pública, como coloca Vera, “(...) os meios de comunicação de massa, principalmente a imprensa escrita, exercem papel fundamental nas sociedades democráticas (...) são (...) formadores quanto veículos de expressão da opinião pública” (2004: 15). Para que público tenha a sua opinião, ele precisa de informação, mas como a opinião pública pode ser exatamente do público se as informações que chegam a este são pautadas pela própria mídia? Se a mídia pauta a informação, como dizer que a opinião pública que ela expressa, segundo Chaia, não segue apenas os assuntos pautados por ela própria? Não seria então, a opinião pública, a opinião da própria mídia? Ainda mais quando, como veremos a seguir, a construção das notícias pautadas se dá de uma forma que, confrontando-se com os valores propostos aqui como valores éticos do jornalismo, suscita diversas dúvidas a respeito, dentro quesito fundamental da democracia como nos disse Bucci, o direito fundamental à informação: exatamente que informação e de que forma ela chega ao público?

Para refletirmos sobre isso, listamos a seguir os valores até aqui mencionados que, assim, poderíamos atribuir como os valores éticos do jornalismo, que poderiam ser expressos nas seguintes palavras-chave: informação como direito fundamental do cidadão, isenção, independência, autonomia, fiscalização, visão apolítica, neutralidade. Vamos refletir sobre esses valores dentro das colocações, ainda dentro dos estudos de Vera Chaia, de questões que abordaremos nos próximos tópicos.


Jornais e Jornalistas

Os estudos de Vera Chaia são de imensa valia para entendermos como a imprensa atua (na cobertura política), e como os valores que já mencionamos se relacionam com os jornalistas e seus veículos informacionais, e também como se dá a própria construção das notícias. Além da questão da pauta, revelada através dos estudos sobre o agenda-setting, Vera demonstra que a construção da notícia é de suma importância, citando Swanson , coloca que:

“As formas usadas freqüentemente de fazer as notícias mais interessantes para o público incluem (...) enfatizar dramas e conflitos; concentrar-se em acontecimentos concretos (...) personalizar as notícias apresentando pessoas concretas na representação das instituições (...) reduzir assuntos à simples histórias com moral” (2004: 16).

Com essa colocação, poderíamos questionar o fato do jornalismo criar “histórias com moral”, refletindo se esta moral jornalística não seria semelhante a moral como uma imposição, como denunciava o imperativo categórico de Kant, que seria a universalização da moral da mídia, em detrimento do que talvez devesse ser a universalização da moral através da mídia? A mídia, ao apresentar uma história com moral, não estaria interferindo no princípio da isenção apontado por Bucci?

A própria Vera coloca que a cobertura neutra do jornalismo não se verifica na prática, onde o noticiário político segue a linha do que aponta um estudo de Patterson , o chamado jornalismo interpretativo (portanto não-isento), onde, teoricamente, o jornalista teria mais autonomia para redigir as matérias, “Neste tipo de jornalismo, o jornalista é um analista e constrói a matéria segundo suas escolhas pessoais e <devido à maior oportunidade para expressar suas visões sobre a política, os jornalistas atacam cada vez mais os líderes e as instituições políticas>” (2004: 18). Isso nos mostra também de forma clara que, sendo interpretativo, seria impossível a informação conter uma visão ‘apolítica’, a interpretação pode ter vários diferentes vieses, mas em nenhum caso, ser apolítica. Um desses vieses interpretativos poderia ser o denuncismo, como aponta Vera (apud Waisborg) : “(...) seria uma deformação do jornalismo investigativo, caracterizada pela pouca investigação independente (...) predomina o sensacional, a narração de uma história dramatizada, onde a denúncia não é fundamentada, o registro dos fatos não é feito com isenção” (2004: 18). Apesar do jornalismo se apresentar neutro, aqui vemos como a atuação do jornalista deixa de ser imparcial, se afastando tanto do ideal da isenção, quanto do ideal da visão ‘apolítica’. Além da visão política do jornalista, Vera aponta que a falta de isenção também permeia o noticiário, fato que se agrava mais quando ela denuncia que: “As notícias sobre política serão construídas a partir da escolha pessoal dos jornalistas (...) mas fazendo parte de uma máquina e de uma empresa jornalística que é dirigida por diretores e editores que obedecem à linha diretriz traçada pelos proprietários dessa empresa” (2004: 19).

Essa questão que coloca a pauta jornalística alinhada à diretriz dos proprietários dessas empresas, põe em xeque o ideal de independência e de autonomia desses veículos. Entendendo esses veículos como empresas que muitas vezes se constituem em grandes corporações de mídia, pensamos como fica essa independência em função do que coloca o estudioso Noam Chomsky: “Uma corporação moderna (...) é tão próxima do ideal totalitário quanto qualquer instituição construída pelo homem. As decisões são tomadas no topo, transferidas para os burocratas (gerentes) em sucessivos níveis inferiores e, finalmente, executadas pelos funcionários que apenas seguem ordens. Essas tiranias privadas são em grande parte não-explicadas ao público” (CHOMSKY, 2007: 10-11). Sendo as empresas jornalísticas corporações modernas, o ideal totalitário poderia ser expresso pela imposição da pauta a partir do topo dessas instituições, na base, os repórteres e jornalistas (funcionários) apenas trabalham as notícias seguindo a linha dessa “tirania”, como aponta Chomsky, onde a sua autonomia e independência seriam, dessa forma, limitadas. Lembrando que antes de tudo, como empresas, os veículos de mídia funcionam a partir do princípio do lucro, de forma que a imposição das pautas, dentro da hierarquia empresarial, muitas vezes, está submissa aos interesses mercadológicos dessas empresas, do valor comercial da venda de informação, dos interesses e alianças políticas e, enfim, da questão da verba publicitária e parcerias comerciais, fatores que podem influir na cobertura da imprensa. Tudo isso, põe em dúvida a questão da independência e da autonomia, não só na atuação dos jornalistas, mas também na linha diretriz das pautas abordadas pelas empresas jornalísticas. Seguindo nessa linha de reflexão, assumindo que as empresas jornalísticas têm sim os seus alinhamentos políticos e interesses comerciais, possuem os seus próprios objetivos e são fiéis a eles, elas jamais podem ser entendidas como neutras dentro de sua atuação na sociedade. A relação mídia-poder, no que concerne à relação entre políticos e jornalistas, é definida por Vera da seguinte forma: “(...) é uma relação de mútua dependência, pois os políticos precisam dos meios de comunicação para serem conhecidos pelos eleitores, enquanto os jornalistas precisam dos políticos para obterem informações” (2004: 21). Vera vai exemplificar tal “casamento” entre jornalistas e políticos pelo que ela identifica como sendo o uso midiático das CPIs (Comissão Parlamentar de Inquérito): “As (...) CPIs (...) podem ser avaliadas (...) como fontes de obtenção de informações que movimentam o mercado editorial, gerando matérias e notícias que chegam cotidianamente aos leitores”. Poderíamos acrescentar também, que além de uma fonte de notícias, as CPIs são uma fonte de visibilidade para os políticos nelas envolvidos, de forma que atendem perfeitamente à relação entre jornalistas e políticos como mencionada acima.

Ainda na relação entre mídia e poder, no que tange as empresas de mídia, poderíamos citar um velho exemplo de Renato Ortiz, ainda da época da ditadura brasileira, de como os interesses empresariais da mídia se cruzam com os interesses do governo:

“(...) os interesses dos militares e dos empresários brasileiros se articulam para a derrubada de Goulart. (...) Se lembrarmos que a partir de 1966 é dado um incentivo real à fabricação de papel, e facilitada a importação de novos maquinários para edição, percebemos claramente que existe uma gama de interesses comuns entre Estado autoritário e o setor empresarial do Livro” (1998: 117).

Como comentamos anteriormente, a questão das verbas publicitárias também é algo que pode pesar na autonomia e independência da mídia. Como pode existir total independência da mídia se ela em grande parte depende das verbas publicitárias? Essa questão se agrava ainda mais, pois o governo também participa dela, como nos conta Ortiz, “(...) um sistema de comunicações economicamente forte, dependente da publicidade, passa no caso brasileiro necessariamente pelo Estado” (1998: 121).

As relações entre mídia e poder colocadas nos parágrafos anteriores, nos leva a pensar até que ponto elas influem na construção das pautas jornalísticas, até onde elas interferem na autonomia, independência e neutralidade tanto dos jornalistas, quanto dos veículos de mídia? De qualquer modo, cremos que neste contexto, tais ideais sejam limitados.

Os Outros Modelos de Agenda-Setting

Trabalhamos no tópico anterior, o modelo de agenda-setting ‘bottom-up’, como sendo, além de um modelo de construção da pauta jornalística, um paradigma ou ideal de imprensa. Agora então, iremos refletir um pouco sobre os outros modelos. Dos modelos apresentados, aquele que nos parece ser o mais ideal dentro das democracias, e seu nome o remete para tal, é o modelo mediacracy, seria o modelo onde a mídia é quem vai influir no agendamento dos temas relativos a política. A imprensa teria uma função estratégica na vigília sobre o poder público, buscando e trazendo informações vitais para a população, exercendo aquele que seria um de seus maiores paradigmas, como mantenedora do direito público de acesso à informação, a função fiscalizadora da imprensa. Dessa forma, um outro ideal do jornalismo que estaria diretamente atrelado a este modelo, seria a função conhecida como watch dog , ou seja, a sua função de vigiar e investigar fatos que concernem a opinião pública e as populações em geral, como bem define o estudioso norte-americano Yochai Benkler : “(...) diz respeito à função que ele chama de ‘cão de guarda’, onde sob o paradigma da liberdade de imprensa, os veículos de mass media exercem uma função de vigília sobre o que concerne ao interesse público”. Já Vera (apud Patterson) , ratifica a importância da função “cão de guarda” da imprensa, mas faz uma ressalva: “(...) um jornalismo ‘cão de guarda’ é uma das melhores salvaguardas contra os abusos do poder. No entanto, as democracias precisam de um cão de guarda com bom-senso” (2004: 19). Em outras palavras, a vigília da imprensa estaria órfã daquilo que, como há muito já dizia Descartes, seria o único parâmetro racional capaz de guiar a conduta ética do Homem, o bom-senso. Ligando esta questão à própria ética jornalística, Vera cita Bucci , que coloca: “(...) falar em jornalismo é falar em vigilância do poder e, ao mesmo tempo, em prestação de informação relevantes para o público, segundo os direitos e necessidades do público (e não do governo)” (2004: 19). Bucci sempre se preocupa com o paradigma de direito ao acesso à informação pelo público, e coloca: “Numa sociedade democrática, não existe matéria que possa ser segredo de Estado” . Nesse sentido, questionamos: e quanto ao jornalismo, pode este, dentro desta mesma sociedade democrática, esconder o acesso à suas fontes? Uma das facetas dessa função watch dog da imprensa seria o jornalismo investigativo, uma modalidade específica jornalística que, segundo Vera: “(...) pressupõe que os jornalistas tenham um papel ativo e envolve um trabalho de averiguação e de busca de fatos que comprovem determinadas denúncias” (2004: 19). Ainda assim, eventualmente, tal função não é baseada apenas na autonomia dos jornalistas, pode servir de pano de fundo para uma articulação destes com os políticos no intuito de defender determinados interesses, como adverte Vera, “Certos grupos políticos podem se unir com determinados meios de comunicação, visando estabelecer intercâmbios e alianças para combaterem inimigos comuns” (2004: 21) . Dessa forma, mesmo a função watch dog estaria comprometida em termos de isenção e autonomia.

Outra questão ainda pertinente, refere-se ao terceiro modelo de agenda-setting que mencionamos, o modelo top-down, onde a pauta seria imposta pela classe política. Modelo que podemos atribuir a diversos veículos controlados por políticos, veículos cujos donos são políticos, mantém jornalistas e editores que também são políticos, enfim, um modelo diretamente atrelado à classe política, onde esta faz o agendamento dos temas abordados conforme os seus interesses. Talvez seja o modelo mais sombrio dos mencionados, pois é difícil encontrar um veículo, especialmente na grande mídia, que vai expor ao público as suas alianças políticas, que vai se colocar em nome de algum político ou partido, ou que vá até mesmo enfatizar que a sua abordagem jornalística segue a linha dos donos, dos parceiros, e estes são políticos e/ou tem as suas alianças partidárias, algo que seria radicalmente contra as idéias de neutralidade e de visão apolítica, que é como esses meios se colocam para o público. Deixando de lado a questão do modelo, Vera (apud Abreu Lattman-Weltman) nos mostra uma maneira de como a classe política pode influenciar a pauta do noticiário, criando fatos políticos para serem divulgados:

“Esse é outro aspecto da questão: a relação entre imprensa e poder, uma relação de muita cumplicidade, de muita proximidade e de muito fascínio da imprensa, pelo poder. A imprensa é vista pelo poder político e econômico como um instrumento, como um meio de transmitir determinadas informações que podem destruir um adversário político, um concorrente. A informação é passada para o jornalista porque alguém está interessada em divulgá-la. Logo, todo vazamento de informação tem um lado de manipulação política” (2004: 20).

Dessa forma, uma informação que muitas vezes chega à imprensa atribuída como iniciativa dela mesma, pode ocultar o interesse do político que passou ou vazou a informação para a mídia, seria também, uma forma dos políticos estarem determinando os assuntos a serem veiculados pela mídia.

Algumas Conclusões

Numa citação acima de Yochai Benkler, ele comenta de um outro paradigma que é próprio, específico e muito defendido pela imprensa, a liberdade de imprensa, liberdade de expressão. Entendemos que este é um ideal que merecia um estudo à parte, tão vasta são as questões a ele relacionadas. De alguma forma porém, o que analisamos até aqui sobre o jornalismo, refere-se a um contexto de sociedades democráticas, onde a imprensa tem essa liberdade como paradigma. Assim, entendemos que os exemplos e modelos apresentados aqui, trazem em si, implicitamente, este ideal.

Compreendemos que, antes de qualquer crítica à imprensa, temos que entender o seu papel dentro daquele paradigma levantado: a informação como direito fundamental do cidadão. Vimos nos estudos de Vera Chaia sobre o agenda-setting, quais são os modelos e alguns exemplos de como a imprensa vai focar e selecionar as pautas das matérias que são divulgadas para o público seguindo diferentes diretrizes, tanto dos jornalistas quanto de seus veículos. Refletimos também, como isso se relaciona com alguns ideais éticos da própria imprensa. Mas para compreendermos melhor se o paradigma de acesso à informação é realmente eficaz dentro das sociedades democráticas, teríamos de analisar dentro deste prisma do agenda-setting, quais são as informações que de fato chegam ao público, e a relevância que elas têm para este. Isto é o que a pesquisa de Vera em cima da cobertura política da Câmara de Vereadores de São Paulo tenta em parte responder e, depois de uma longa análise em cima de centenas de notícias dessa cobertura, ela chega a algumas conclusões, muitas delas a respeito do que levantamos até aqui.

Mais uma vez, Vera destaca a relação entre jornalistas e políticos, onde um necessita do outro, “Também é ressaltada a relação de complementaridade entre os jornalistas – que precisam dos assuntos fornecidos pelos políticos para que estes sejam transformados em notícias – e os políticos, que necessitam da imprensa para que sejam divulgados seus projetos e suas opiniões políticas” (2004: 91). Uma relação que, como vimos, interfere na isenção e autonomia do jornalismo, sendo ratificada pela estudiosa em suas conclusões, “(...) o trabalho jornalístico não goza da autonomia pretendida pelos jornalistas (...) na verdade, esta categoria está atendendo às exigências do próprio mercado, que opera visando o lucro e a audiência” (2004: 92). Apontando os estudos de Pierre Bourdieu, Vera conclui que esta relação seja, como nas palavras dele, “de cumplicidade objetiva”, e depois argumenta: “O campo jornalístico é um ‘microcosmos’ com leis próprias, sendo que a busca da autonomia e da liberdade encontra barreiras impostas pela dinâmica deste <microcosmos>” (2004: 92). A questão é: pode as leis próprias deste ‘microcosmos’ superar a própria ética?

Enfim, umas das conclusões em cima da questão do agenda-setting proposta por Vera, das pautas e da construção das matérias, ela diz: “A imagem construída pela mídia (...) é feita sob duas circunstâncias: o agendamento dos temas; e o fato de a veiculação das notícias passar pelo crivo pessoal dos jornalistas, que estabelecem seus critérios para consagrar o que é importante para a população (...) O princípio que norteia a seleção das notícias é o sensacionalismo, o que causa impacto” (2004: 92). E nós poderíamos acrescentar ao final dessa frase: o que ajuda vender jornal.


A Cobertura do Planalto

Neste capítulo, iremos analisar alguns casos narrados no livro de Mario Sergio Conti, “Notícias do Planalto” sobre a mídia e a cobertura política da presidência de Fernando Collor de Melo, confrontado-os com os valores e questões que levantamos nos capítulos anteriores.

A Cumplicidade

Neste tópico traremos alguns exemplos que nos mostram um pouco da relação entre a mídia e os políticos. A seguir, temos um exemplo muito claro que demonstra como se articulam, em alguns casos, os interesses entre o dono do veículo de mídia, o poder e a publicidade:

“Em julho de 1988, Alzugaray recomprou a IstoÉ (...) Comprou-a por 3 milhões de dólares (...) em 36 parcelas mensais (...) teria de vender cerca de dez páginas de publicidade a mais por mês. Saiu a campo. Visitou os donos de agências, grandes anunciantes e o presidente da FIESP (...) O editor também procurou Quércia. – Comprei a IstoÉ, governador, tenho que pagar mais de 80 mil dólares por mês durante três anos, e queria saber: posso contar com o amigo? – Pode contar comigo – respondeu Quércia (...) – Mas eu conto com você também” (1999: 422).

Nesta relação fica claro o comprometimento entre mídia e poder, e também a dependência econômica da mídia pela verba publicitária. Em função disso, independência, autonomia, e a própria visão apolítica ficam comprometidas. Dada a estreita relação entre o dono da revista e o governador estadual (SP), fica difícil saber até que ponto a informação desse veículo pode ser isenta.

A linha diretriz do dono dos veículos de mídia como um fator que interfere na pauta da informação jornalística pode ser entendida ao se analisar o editorial de alguns veículos, no caso, de jornais impressos, onde a mensagem é sempre opinativa e expressa a visão, ou do próprio dono, ou da editoria a ele alinhada. O exemplo a seguir mostra como um mesmo fato é interpretado de diversas maneiras, ou até mesmo ignorado, conforme o alinhamento político do veículo, visão apolítica, é um ideal que não podemos aplicar aos editorais a seguir. O caso refere-se a um episódio às vésperas do 2º turno das eleições de 89 , quando Collor trouxe uma ex-namorada de Lula (Miriam Cordeiro) para depor no seu programa eleitoral gratuito, expondo fatos desagradáveis sobre o passado do presidenciável petista. Atitude que acreditamos, no mínimo, quebrar a ética do bom-senso por parte de Collor.

“Na manhã seguinte (...) O Globo publicou um editorial (...) sustentou que ‘É chocante mesmo, lamentável que o confronto desça a esse nível, mas nem por isso deve-se deixar de perguntar se é verdadeiro’ (...) O jornal de Roberto Marinho concluiu assim o editorial: ‘Houve distorção? Ou aconteceu tal como narra a personagem apresentada no vídeo? Não cabe submeter o caso a inquérito. A sensibilidade do eleitor poderá ajudá-lo a discernir (...).

A Folha de S. Paulo não fez editorial sobre o assunto. O Jornal do Brasil, sim, condenou o PRN por ter apresentado a entrevista ‘A horas do seu encerramento, a campanha eleitoral foi truncada pela invasão da vida privada de Luis Inácio Lula da Silva’ (...) O JB comentou a acusação de que a ex-namorada de Lula havia sido paga para atacá-lo (...).

O Estado de S. Paulo dedicou o seu (...) editorial às eleições, mas não se referiu a Mirian Cordeiro (...) apresentou Lula como ‘prisioneiro das minorias anticonstitucionais que o PT abriga, afora os albaneses que se reúnem no PCdoB (...) possuidores de militante fanatismo xiita (...) além de ameaçar tantos quantos são proprietários’ (...) No fecho do editorial, o jornal da família Mesquita afirmou: ‘O programa do PT transformará o Brasil num país fora do mundo moderno (...) fará da democracia um simulacro e sacrificará os trabalhadores, como Stalin os sacrificou na Rússia, Castro em Cuba e Mao na China. Por tudo isso a posição do bom senso e do patriotismo recomenda que se vote (...) pelo Sr. Fernando Collor de Melo’.” (1999: 243-245).

Vimos diferentes visões nesses exemplos de editoriais de quatro grandes jornais brasileiros. Afora a Folha de S. Paulo, cujos gatekeepers bloquearam a informação, os outros três jornais o interpretaram de diferentes maneiras. O Globo tentou ser imparcial, colocou o paradigma do direito ao acesso à informação no julgamento do fato exposto, afinal o público não teria direito de saber tudo o que se passa na vida de um presidenciável? Não deixa de ser uma forma de ratificar a conduta de Collor, sem, ao mesmo tempo, concordar com ela. O Jornal do Brasil se colocou contra o fato, defendendo a imagem de Lula, inclusive insinuando tal denúncia como sendo uma armação. Enfim, O Estado de S. Paulo, não só ignorou o fato como se posicionou em prol de Collor, pedindo ao público que votasse nele. Nesses exemplos, vemos claramente como a linha diretriz dos donos dos veículos, ou seus gatekeepers, influem na pauta dos assuntos jornalísticos, onde cada editoria vai embutir a sua própria visão política sobre um mesmo assunto. A opinião expressa nesses editoriais, nos dá pistas de qual será a linha diretriz da cobertura política jornalística desses veículos.

A Busca pelo Furo

Já durante a CPI que investigava as relações entre Fernando Collor e Paulo César Farias, temos um episódio onde um político negocia a sua aparição na mídia, no caso, Renan Calheiros, que estava prestes a depor na CPI e oferece uma entrevista exclusiva à revista Veja. Pode ser um exemplo clássico de uso midiático gerado por uma crise política, onde os políticos procuram passar para mídia informações exclusivas e de seu interesse, além de usá-la para se projetarem frente à opinião pública, enquanto a mídia precisa de fatos valiosos ligados à crise para gerar boas matérias, os “furos” jornalísticos.

“Renan Calheiros pegou o telefone e foi avisado de que os dois jornalistas estavam indo naquele momento para a casa dele. Eles chegaram lá por volta das cinco e meia da manhã. Insistiram que queriam exclusividade na entrevista. Só assim ele poderia ser assunto de capa da próxima edição de Veja. ‘Mas que garantia vocês me dão de que a entrevista será capa?’, perguntou o deputado. Oinegue ligou para mim, que também estava dormindo, explicou o problema e passou o telefone para Renan. Eu garanti que ele sairia na capa da revista, desde que a entrevista fosse exclusiva e ele dissesse novidades sobre a associação entre Collor e Paulo César Farias. Renan então combinou com os dois repórteres de se encontrarem às dez horas da manhã” (1999: 573).

Esse exemplo coloca em xeque o paradigma de acesso à informação, tanto por parte do político que o restringe a apenas um veículo de mídia em troca de um destaque maior (capa), quanto por parte da revista, que impôs essa restrição ao político. No caso vê-se que o comprometimento em informar por parte da mídia é por seu valor mercadológico e não por se tratar de uma informação que concerne ao público. Por parte do político, é uma chance de projetar sua imagem perante a opinião pública, como frizamos. Esse também é um caso de uma informação que chega à imprensa seguindo o interesse do político em divulgá-la, o que, como vimos nas palavras de Lattman-Weltman , “tem um lado de manipulação política”.

O caso da revista IstoÉ que trouxe a tona uma denúncia que possibilitou incriminar o presidente Fernando Collor, a matéria com Eriberto França, um motorista da Casa da Dinda onde era a morada de Collor em Brasília, coloca o paradigma do direito fundamental de acesso à informação em confronto com outros valores da ética, tais como a própria idéia do Bem e da liberdade. A conduta dos jornalistas na busca de informações que veremos a seguir, nos mostra que o único padrão ético que eles seguem, pelo qual eles justificam as suas ações, é o de trazer informações ao público, nem que para isso, às vezes, seja necessário deixar outros valores de lado. Mas, como veremos também, até essa busca pelo furo, não segue exatamente o paradigma da informação como direito fundamental, e sim aos interesses mercadológicos dos veículos de mídia que precisam de fatos que lhes gerem boas notícias, que aumentem o seu valor comercial, seja da venda do seu produto, dos espaços publicitários ou da sua própria credibilidade como órgão jornalístico.

A matéria intitulada “Eriberto, Um Brasileiro”, começou a nascer quando a revista se viu na necessidade de criar um furo sobre a crise que envolvia Pedro Collor e PC Farias, pois a sua concorrente, a revista Veja, já havia publicado várias matérias estrondosas nessa crise, como colocava João Santana Filho, o chefe da sucursal de Brasília da IstoÉ: “João Santana (...) achava inútil IstoÉ concorrer com Veja nos terrenos que a concorrente conquistara: a investigação de negócios no exterior, as entrevistas com aqueles que haviam integrado o governo e passaram a denunciá-lo, como Mota Veiga e Renan Calheiros, e o registro das ações e opiniões de Paulo César Farias” (1999: 586). Com a Veja na dianteira da cobertura da crise, o sentimento era de derrota na redação: “IstoÉ noticiara todos os escândalos da administração federal, mas patinou na apuração da briga entre Pedro Collor e o tesoureiro do presidente (...) Havia consciência, na redação, de que a revista entrara com o pé esquerdo na cobertura” (1999: 586). Assim, na busca de algum fato novo, a revista conseguiu uma entrevista com o presidente Fernando Collor: “Também com o intuito de diferenciar IstoÉ de Veja, João Santana Filho havia pedido ao porta-voz Pedro Luiz Rodrigues que o presidente desse uma entrevista exclusiva à primeira. Collor foi convencido a concedê-la” (1999: 588).

Mas o grande furo da IstoÉ apareceu através das investigações de um fotógrafo da sucursal de Brasília, Mino Pedrosa. Ao fazer investigações numa empresa de PC Farias, a Brasil-Jet, o fotógrafo foi procurado por um rapaz que queria lhe vender informações , após encontrarem-se algumas vezes, veio o relato: “Júnior parou de falar em trocar o documento por dinheiro. Ele contou que a Brasil-Jet pagava o aluguel de dois carros, um Opala vinho e um Santana preto, que eram usados pela secretária particular de Collor, Ana Acioli. Quem dirigia os carros era um motorista do Planalto que Júnior disse chamar-se ‘Elibelto’.” (1999: 591). Foi assim que Mino Pedrosa chegou ao nome de Eriberto França. O contato de Mino Pedrosa com o motorista é narrado da seguinte forma:

“Na lista dos empregados da Radiobrás, acharam o registro de Francisco Eriberto Freire França, um motorista que Mino Pedrosa conhecia de vista. O fotógrafo foi ao Planalto. Viu o rapaz num corredor e tirou uma foto dele. – O que é isso? – reagiu o motorista, desconfiado. – Estou gastando um resto de filme, depois te dou a foto (...) me dá o endereço da tua casa que eu vou mandar entregar a foto lá” (1999: 592).

Este exemplo mostra como, na busca da informação, outros padrões como do bom-senso são colocados de lado, o fotógrafo ludibria o motorista a fim de descobrir seu endereço. Uma vez com o endereço de Eriberto, na mesma noite, Pedrosa foi acompanhado de um repórter à casa do motorista.

“Pedrosa e Fonseca bateram à porta do pequeno apartamento do motorista. Já de pijama, Eriberto França se assustou ao vê-los. – O que é isso, Mino? Tem merda ai? – Tem, Eriberto, vamos conversar” (1999: 592).

Mino Pedrosa passa a coagir Eriberto França, colocando que sabia que ele “(...) foi lotado na Radiobrás e (...) pegava cheques e dinheiro em espécie na Brasil-Jet e os entregava ao mordomo da Casa da Dinda” (1999: 593), como vemos no relato a seguir: “Mino Pedrosa abriu a conversa naquela noite de terça-feira dizendo que sabia que o motorista recebia comissão pelo aluguel dos carros de Ana Acioli. ‘Eu tenho a fatura provando isso’, anunciou” (1999: 593). Assim Pedrosa e Fonseca vão questionando Eriberto até que ele concordasse em dar informações.

“Augusto Fonseca e Pedrosa formavam uma dupla eficaz de entrevistadores. Enquanto o fotógrafo endurecia e cobrava detalhes, o repórter ponderava, entendia as preocupações de Eriberto França e o tranqüilizava. O motorista entregou alguns documentos aos repórteres. No fim da entrevista, Eriberto França falou-lhes que se desligaria da Radiobrás. ‘Não quero ser demitido a bem do serviço público’, explicou. – E como agente vai ficar, com o Eriberto sem emprego? – perguntou Patrícia, a esposa de Eriberto. – Dou minha palavra que ele vai ter um emprego na IstoÉ, ganhando o mesmo salário – respondeu Pedrosa” (1999: 594-595).

Mais uma vez o paradigma de acesso à informação se coloca acima de outros, no caso, o bem estar da fonte, Eriberto, que é obrigado a abdicar de seu emprego, e ainda, colocando a própria segurança em jogo. Tal ameaça é, inclusive, também utilizada para coagir a fonte, como vemos no trecho a seguir.

“O chefe da sucursal propôs que gravassem uma entrevista e o motorista hesitou. ‘Você corre perigo, Eriberto’, disse Santana Filho. ‘O pessoal do governo vai saber que você está falando com agente’ (...) Combinaram que no dia seguinte, quinta-feira, Eriberto pediria demissão da Radiobrás. Na sexta, ele, Patrícia e os filhos viajariam para Salvador. No sábado, Santana os encontraria lá e os levaria para a fazenda de sua irmã (...) Só voltariam à Brasília depois que a entrevista tivesse sido publicada” (1999: 595-596).

Nesta passagem, é difícil saber se tal atitude foi tomada para preservar a segurança de Eriberto, se existia mesmo alguma ameaça para ele, ou foi uma iniciativa da revista, com objetivo de garantir que a informação que ele estava fornecendo não vazasse para outros órgãos de imprensa ou para os políticos envolvidos. Em posse das informações e documentos que Eriberto fornecera, a revista IstoÉ as submeteu à um político, afim de averiguar a sua importância. “Santana Filho (...) escolheu o senador Mário Covas por três motivos: considerava-o sério; ele era membro da CPI, e, tucano paulista, via com maus olhos o quercismo de IstoÉ (...) Covas ficou estarrecido com a história que Santana Filho lhe contou e com os documentos que viu” (1999: 596-597). Apesar do furo em mãos, a revista tinha outro problema, a entrevista com o presidente:

“O dono da revista perguntou se não era possível adiá-la para a edição seguinte. Na opinião de Alzugaray, era chato terem uma entrevista exclusiva com o presidente e, na mesma edição, darem uma matéria incriminando-o (...) como explicar aos leitores que Santana Filho e Mino Carta não tivessem feito perguntas ao presidente, na manhã de quarta-feira, sobre as relações monetárias de sua secretária particular com a Brasil-Jet de Paulo César Farias?” (1999: 598).

O problema foi contornado com um editorial, onde a revista alegou nada saber ainda das revelações de Eriberto quando entrevistara o presidente. Mas de fato, ela sabia sim, mas nada poderia perguntar ao presidente sem que o furo vazasse para o governo e para a concorrência.

“No editorial intitulado ‘Questão Moral’, escreveu-se: ‘Na manhã de quarta-feira, os entrevistados não sabiam, e sequer imaginavam, que certas pistas seguidas já há alguns dias pelos repórteres Augusto Fonseca e Mino Pedrosa, da sucursal de Brasília, na noite de quarta para quinta, numa personagem, possivelmente decisiva, para o esclarecimento do imbróglio’. Com isso, o encontro dos repórteres com Eriberto França, no apartamento do motorista, foi transferido da noite de terça para a de quarta”. (1999: 598-599).

Apesar de mentir em seu editorial intitulado “Questão Moral’, a revista IstoÉ jamais se perguntou se a sua conduta para com Eriberto, se colocava dentro desta moral, apesar de ter aceitado os termos da revista, ele foi obrigado a abdicar de seu emprego e se refugiar com a família. Somente depois da matéria publicada é que Eriberto se deu conta da relevância que as suas informações tiveram dentro da crise presidencial, e que ficaria marcado para sempre, “Vocês me enganaram. Vocês me falaram que eu só ia aparecer na revista. Vocês foderam minha vida – disse ele” (1999: 600). Em cima dessa colocação do motorista, o chefe da sucursal de Brasília de IstoÉ (Santana Filho) tenta acalmar Eriberto, mas não preocupado com ele, e sim em proteger as informações que divulgara, “Calma Eriberto, vai dar tudo certo – disse o jornalista, com um medo crescente de que o motorista voltasse atrás nas suas declarações” (1999: 600). Despreocupado com o destino do motorista, o jornalista apenas se deleitava com o seu prêmio, a matéria publicada.

“Na noite do mesmo domingo, Santana Filho foi para Salvador e pegou um vôo para Brasília. Entrou atrasado no avião, onde estavam sentadas umas cinqüenta pessoas. Teve então a maior recompensa profissional da carreira dele: a maioria dos passageiros segurava IstoÉ e lia a sua reportagem” (1999: 601).

O jornalista teve a sua recompensa profissional, a revista IstoÉ teve o seu furo jornalístico, e a crise presidencial teve o seu rumo decidido. A informação, que envolvia corrupção da figura pública máxima nacional, foi a público como reza o seu próprio paradigma. Mas e a vida de Eriberto?

“Tendo perdido o emprego no Palácio do Planalto, e com ele o direito de usar o apartamento funcional, Eriberto França foi contratado para ser motorista de IstoÉ em Brasília, o fotógrafo Mino Pedrosa e o chefe de sucursal João Santana Filho, foram fiadores de seu apartamento, cujo aluguel Domingo Alzugaray, o dono da revista, pagou. O motorista não se deu bem na nova função. Encaminhou ao governo Itamar Franco um pedido de reintegração no cargo, que lhe foi negado. Eriberto França quis ser demitido de IstoÉ. Com o fundo de garantia e uma indenização que lhe foi dada por Alzugaray, comprou uma Kombi para trabalhar por conta própria. Ele e Patrícia se separaram. O motor da Kombi fundiu e Eriberto França se viu sem emprego, sem meios de sobrevivência e sem ter como pagar a pensão dos filhos. Foi morar num quarto alugado. Sobrevivia fazendo bicos. Diversas vezes, procurou Mino Pedrosa para pedir que ele lhe pagasse o almoço. O fotógrafo falou com parlamentares e ministros para que arrumassem um emprego para o motorista. Nenhum deles fez nada. Em junho de 1995, Odacir Klein, então ministro dos Transportes, empregou Eriberto França como contínuo. Ele passou a ganhar menos de trezentos dólares por mês. Quando a situação financeira aperta, o herói do caso Collor vai para a rua e ganha alguns trocados tomando conta de carros” (1999: 681-682).

Bom, a vida de Eriberto está abaixo da importância maior que o acesso público às informações, ou seja, qualquer valor ético que possa ser relacionado com a vida particular de algumas pessoas, ou que pudesse ser parâmetro de conduta nas investigações jornalísticas, como vimos. Tudo parecer estar sempre em segundo plano em relação ao que tange o acesso à informação. Mas o próprio direito à informação, como vimos no exemplo acima e ao longo desse estudo, está subordinado a outro fator, que se relaciona diretamente ao valor comercial da própria informação: a exclusividade ao acesso à informação, o furo. Mais importante que a informação vir a público, é determinado veículo X, ou Y, estarem eles, passando a informação, e não os concorrentes. Assim, para defender essa exclusividade, sem a qual não há furo jornalístico, outros padrões éticos também são colocados abaixo.

Advogando Eriberto

No livro de Eugênio Bucci, “Sobre Ética e Imprensa”, ele coloca quais são os códigos de ética do jornalismo brasileiro (aprovado pela Federação Nacional dos Jornalistas – 1985) . Analisando o case acima, a matéria com Eriberto França, identificamos as seguintes questões que concernem ao referido código . A busca da informação que incriminou Fernando Collor segue piamente o que reza o 1º artigo do código mencionado: “I – Do direito à informação Art. 1 – O acesso à informação pública é um direito inerente à condição de vida em sociedade, que não pode ser impedido por nenhum interesse”. Quando falamos da figura pública do presidente da república, a informação ganha ainda outra relevância no código de ética: “Art. 4 – A prestação de informações pelas instituições públicas, privadas e particulares, cujas atividades produzam efeito na vida em sociedade é uma obrigação”. Porém, quando lembramos que a IstoÉ informou em seu editorial “Questão Moral”, que realizara a entrevista com Eriberto numa quarta-feira, enquanto o fato ocorreu na terça-feira, ela vai contra o que reza o 2º e o 3º artigo do código: “Art. 2 – A divulgação da informação precisa é dever dos meios de comunicação pública independente da natureza de sua propriedade.

“Art. 3 – A informação divulgada pelos meios de comunicação pública se pautará pela real ocorrência dos fatos (...)”. Assim, no caso desse editorial, a IstoÉ poderia ter optado em falar a verdade, que simplesmente não perguntara nada ao presidente na entrevista que fizera por ainda estar apurando as informações com Eriberto, e também porque não queria expor a sua fonte. Seria uma opção mais ética do que manipular a data em que obtivera as informações do motorista. Quanto à investigação jornalística que levaram às informações que Eriberto possuía, mais uma vez, ela obedece ao que diz o código:

“II – Da conduta profissional do jornalista Art. 7 – O comprometimento fundamental do jornalista é com a verdade dos fatos, e seu trabalho se pauta pela precisa apuração dos acontecimentos e sua correta divulgação”. Art. 9 – É dever do jornalista: a) Divulgar todos os fatos que sejam de interesse público”. Porém, quando analisamos a conduta de Mino Pedrosa ao abordar e depois interrogar Eriberto França, pressionando-o além do limite do bom-senso, percebemos que essa conduta vai contra o que reza o artigo 9, sobre a conduta profissional do jornalista: “Art. 9 – É dever do jornalista: e) Opor-se ao arbítrio, ao autoritarismo e à opressão, bem como defender os princípios expressos na Declaração Universal dos Direitos do Homem”. Mas, no nosso entender, a principal quebra da ética por parte da revista IstoÉ, está no que reza o artigo 8, ainda referente a conduta profissional do jornalista: “Art. 8 – Sempre que considerar correto e necessário, o jornalista resguardará a origem e identidade das suas fontes de informação”.

Como vimos, Eriberto demonstrou não estar totalmente consciente das conseqüências do impacto que as informações e os documentos que revelara à IstoÉ iam ter em sua vida, que inclusive o pressionou para que ele gravasse uma entrevista. A IstoÉ porém, estava ciente da gravidade e do impacto da matéria que estava redigindo, inclusive a submetera à analise do senador Mário Covas. Era obrigação da revista advertir Eriberto das possíveis conseqüências que aquele ato poderia implicar em sua vida, fato que, como vemos no desfecho da sua história, parece não ter acontecido. Talvez nesse caso, a revista poderia ter optado em proteger a identidade de Eriberto, em dever, justamente, do que reza o artigo do código colocado acima. Percebemos que, pelo contrário, as atitudes da IstoÉ foram somente no intuito de proteger a sua informação, levando Eriberto para longe de Brasília e, inclusive, gravando seu depoimento, o que sabemos ser uma forma da revista se isentar das informações que está divulgando e promover o sensacional. Assim, como colocamos, a revista teve o seu furo, e Eriberto ficou marcado para resto da vida como narra Conti, “o herói do caso Collor”, mas a que preço?

Apesar da informação fundamental relativa a crise da presidência de Fernando Collor, que foi o elo final de ligação entre Collor e PC Farias, ter vindo a público. A grande questão que fica é: pode o paradigma da informação como um direito fundamental do cidadão se colocar acima de valores que concernem a liberdade do individuo? O Bem e a Liberdade de um estão subordinados ao direito de acesso as informações de todos?

Considerações Finais

Como dissemos logo na introdução deste estudo, o objetivo maior deste seria o de levantar questionamentos ao invés de se chegar a respostas, para tal, entendemos, seria necessário empreitarmos nada menor do que uma dissertação de mestrado ou tese de doutorado. No que concerne à ética no jornalismo de um modo geral, após as diversas questões e exemplos colocados, a melhor maneira de definir esta relação talvez esteja na seguinte frase da estudiosa Adriana Nogueira, quando ela nos fala da ética no mundo atual, que incluí também o jornalismo e as corporações de mídia: “Talvez sejamos ainda platônicos: contemplamos e mobiliamos o nosso mundo ideal enquanto o real não tem quem o compreenda” (NOGUEIRA, 2000: 44). Pelo que vimos como sendo os paradigmas éticos do jornalismo, podemos afirmar que existe uma distância platônica entre eles e a prática real da “arte de fazer jornal”.

A Obra da Álvaro Valls

O livro de Álvaro Valls que utilizamos para iniciar as nossas reflexões sobre ética foi-nos muito esclarecedor, apenas dois pontos nos parece que ficaram carentes em sua obra, pontos ligados à questão mais atual da ética. O primeiro seria seguindo a linha da analista junguiana Adriana Nogueira, que afirma ser impossível se falar de ética sem se falar de Jung, Freud, sem ligá-la à questão da psique humana, o que nos faz muito sentido. Outra questão da ética atual ausente na obra de Valls está ligada a um dos problemas mais contemporâneos, o esgotamento natural do planeta, que traz junto a sua problemática, uma nova idéia: o direito das gerações futuras herdarem um mundo para viver. Esse problema global coloca em cheque o sistema capitalista que vivemos e atinge toda a humanidade, mais do que nunca ideais como a fraternidade universal, bom-senso e até mesmo o socialismo, terão de ser praticados em ordem da sobrevivência humana e do próprio mundo que habitamos. Neste caminho, o jornalismo e os meios de comunicação terão um precioso papel a cumprir, conscientizando, informando e discutindo os rumos da sociedade, o direito fundamental ao acesso a informação também é outro ideal cuja prática se urge necessária. Será que estamos preparados?


Os Estudos de Vera Chaia

Depois da leitura da pesquisa sobre a cobertura da imprensa na Câmara Municipal de São Paulo, passando pelos períodos das prefeituras de Luiza Erundina, Paulo Maluf e Celso Pitta, uma pergunta vem logo à cabeça: a existência do poder legislativo em nível municipal é mesmo necessária? No compito geral, a pesquisa de Vera ressalta poucos pontos positivos sobre a atuação da câmara, a questão da política municipal está muito mais focada no poder executivo, o que se reflete também na própria cobertura jornalística midiática, sempre mais preocupada com o prefeito, e ainda tem o alto encargo financeiro ao município que a câmara acarreta. O estudo ressalta a dificuldade da prefeita Luiza Erundina durante o seu mandato, pois tinha minoria partidária na câmara, era obrigada a governar por decreto e teve vários projetos derrubados. Foi também, um período onde houve uma tentativa de moralização na câmara, com grande atuação do “súdito eletrônico” Eduardo Suplicy, e diversas CPIs foram realizadas, embora sem grandes efeitos.

Em seguida veio Paulo Maluf que tinha maioria na câmara, assim conseguiu um acordo com o legislativo que lhe deu uma fatia do orçamento, que o prefeito usou para fazer obras. É justamente nessa fase, onde vários acordos são feitos, diversas sub-prefeituras vão sendo colocadas nas mãos de vereadores, criando-se o que entendemos ser uma espécie de grande malha de troca de influências e favores. No mandato de Celso Pitta, descobre-se que por trás dessa malha existia uma grande rede de corrupção de fiscais da prefeitura, um escândalo que a imprensa intitulou como “A Máfia dos Fiscais”. Nesse episódio, apesar de toda a cobertura da imprensa paulistana e outros órgãos de mídia, as CPIs criadas, as investigações do Ministério Público, o saldo foi negativo. Somente uma vereadora foi presa e dois outros vereadores e um deputado estadual cassados, além de uma tentativa frustrada de se derrubar o prefeito Celso Pitta.

Em cima dessas colocações, eu, como cidadão paulistano, só posso fazer coro ao que Vera coloca nas considerações finais de seu estudo: “(...) a população paulistana não ficou satisfeita com os resultados e não acredita no desaparecimento da corrupção” (2004: 129).

A Presidência de Fernando Collor

Em relação a leitura do livro de Mario Sergio Conti, e também de outros citados na bibliografia deste trabalho, creio que vale algumas considerações sobre a relação que envolveu a mídia e a presidência de Fernando Collor.

A atuação da mídia na cobertura dos fatos que rondaram o Palácio do Planalto durante a crise que culminou na queda do presidente foi fator decisivo para o desfecho final da “Era Collor”. Coube à mídia investigar vários fatos, fazer denúncias, publicizar e debater a crise presidencial. Varias atuações da mídia se destacaram nesse processo, tais como as matérias da revista Veja com as denúncias de Pedro Collor e várias outras, a revista IstoÉ que trouxe à tona o elo final que possibilitou incriminar Collor na CPI de Brasília, a rede Bandeirantes que passou a transmitir a CPI ao vivo, o SBT com grande atuação de seus apresentadores, Jô Soares, Lílian Witte Fibe e Bóris Casoy, que até criou um bordão repetido por vários deputados durante a transmissão ao vivo da votação do impeachment, “é preciso passar o Brasil à limpo”, bradava o âncora, por fim, a rede Globo que inflamou o imaginário popular com a sua minissérie “Anos Rebeldes”, quase que convocando o povo à marchar na rua e escrever o seu último capítulo, “eu vou, porque não?”, e todos foram. Por tudo isso, pode-se afirmar que o impeachment de Fernando Collor só foi possível graças à atuação da mídia neste episódio da história brasileira. Por outro lado, relacionando as principais denúncias que desencadearam e foram decisivas na CPI que incriminou Collor, com o estudo de Vera Chaia que demonstra o uso midiático das CPIs, podemos concluir que ao lado da atuação da mídia na cobertura da crise, houve também uma manipulação política. Uma das lições que fica sobre a derrocada de Fernando Collor é algo que poderíamos dizer estar implícito nos pensamentos de Maquiavel, já dizia o sábio que uma das virtudes do Príncipe seria manter um bom relacionamento com seus súditos. Para Collor talvez tenha lhe faltado um pouco disso, sendo um destes súditos, a própria mídia, chegando a ponto de processar pessoalmente o jornal Folha de S. Paulo. As relações com os súditos se abalaram com as diversas crises que sofreu em seu governo, que se enfraquecia a cada ministro que caia, e se afundou de vez nos mais diversos tipos de escândalos. Talvez tenha faltado um pouco de experiência ao jovem presidente neste sentido, talvez ele realmente não estivesse politicamente maduro para ocupar um cargo de tal envergadura, Collor não tinha toda a virtú necessária para encarar o desafio que se propôs.

O livro de Conti narra a história de uma presidência que passou por vários conflitos políticos, mas não seria isso normal dentro do processo histórico político brasileiro após o longo período de sucessões presidenciais indiretas? Não seria normal para o primeiro governo eleito democraticamente que chegava nessa cúpula governamental, cujos alicerces vinham sendo cimentados há 25 anos desde o golpe militar de 64, ser o governo do conflito? Nesse caso, a virtú não foi uma falta somente de Fernando Collor, mas de toda sociedade brasileira, da classe política, da mídia, de diversas instituições e de todos nós, o povo, deslumbrado, porém inábil para lidar com o novo regime, que não foi capaz de ter um grande presidente que o brindasse dignamente de volta à democracia. Na incipiente democracia moderna brasileira, éramos todos imaturos.

Referências Bibliográficas

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  • CHAIA, Vera. Jornalismo e Política, Escândalos e Relações de Poder na Câmara Municipal de São Paulo. São Paulo: Hacker, 2004.
  • CHOMSKY, Noam. Entrevista: Chomsky, o Mestre do Contra (pp. 8-13) In Revista Cult nº 116. SP: Bregantini, Agosto de 2007.
  • CONTI, Mario Sergio. Notícias do Planalto – A Imprensa e Fernando Collor. São Paulo: Cia das Letras, 1999.

Jornalismo Sitiado. Curadores: Eugênio Bucci e Sidnei Basile. Brasil: Ed.LogOn – São Paulo, 2007.

  • NOGUEIRA, Adriana T. Ética e Psicologia do Profundo (pp. 39-49) in Ética e Comunicação, nº1. São Paulo: FIAM, Jan/Jul 2000.
  • ORTIZ, Renato. A Moderna Tradição Brasileira. São Paulo: Brasiliense, 1988.
  • VALLS, Álvaro L. M. O Que é Ética? São Paulo: Brasiliense, 1996.

Outras Referências

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  • HABERMAS, Jürgen. Mudança Estrutural da Esfera Pública. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1984.
  • LIMA, Venício A. Mídia, Teoria e Política. São Paulo: Perseu Abramo, 2004.
  • MAQUIAVEL, Nicolau. O Príncipe. Florença, 1485.
  • MORAIS, Fernando. Chatô, o Rei do Brasil. São Paulo: Cia das Letras, 1994.
  • IANNI, Octávio. Enigmas da Modernidade-Mundo. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2000.
  • Superman. Dir. Richard Donner. E.U.A.: Warner Brothers, 1978.
  • The Spider-Man. Dir. Sam Raimi. E.U.A.: Columbia Pictures, 2002.
  • WIKIPEDIA. A Enciclopédia Livre. http://pt.wikipedia.org/wiki/Brasil, Nov/Dez de 2007.
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