Relatório Comunicação na Contemporaneidade

Origem: WikiPos, a enciclopédia livre.

FACULDADE CÁSPER LÍBERO
Coordenadoria de Pesquisa e Pós-Graduação
Programa de Pós-Graduação Stricto Sensu em Comunicação
Prof. Dr. Walter Teixeira Lima Junior / Dra. Helioza Matos

Relatório: “I Seminário de Comunicação na Contemporaneidade”
Pedro Luiz de Oliveira Costa Bisneto RA. 07000979 pbisneto@uol.com.br 2008


Conteúdo

Introdução

Como mestrando da Faculdade Cásper Líbero, estou apresentando tema de pesquisa dissertativa que relaciona Internet e Jornalismo. Dentro desta relação, diversas questões ganham relevância, tais como da esfera pública e da convergência. Com o intuito de aproveitar a participação neste seminário e avançar em nossa jornada, tentaremos neste relatório, fazer uma relação entre o que já investigamos e os estudos apresentados durante o seminário. Dessa forma, o relatório a seguir objetiva-se em ir além de simplesmente relatar as palestras e debates realizadas durante os encontros do dia 21 de maio de 2008, objetiva-se em relacionar os temas abordados com o nossa meta maior que é fazer jus ao título de mestre que postulamos.

I Seminário de Comunicação na Contemporaneidade

Atividades

  • Dia 21 de maio de 2008, quarta-feira, 09:00–12:00h. Tema: “Bases conceituais visando a criação de UML (Unified Modeling Language) para pesquisa e validação qualitativa de fontes de informação jornalística”, Palestrante: Prof. Dr. Walter Teixeira Lima Junior (Facasper). Debatedor: Prof. Dr. Sebastião Squirra (Universidade Metodista de São Paulo).
  • Dia 21 de maio de 2008, quarta-feira, 13:30-17:30h. Tema: “Capital Social, engajamento cívico e TICs”. Palestrante: Profª. Drª. Heloiza Matos (Facasper). Debatedores: Profª. Drª. Margarida Cintra Gordinho da ONG Communitas e Prof. Dr. Marcelo Coutinho (Facasper).
  • Local: Fundação Cásper Líbero – São Paulo-SP

Palestras matutinas

O I Seminário de Comunicação na Contemporaneidade iniciou-se com a palavra do coordenador da pós-graduação da Faculdade Cásper Líbero, Prof. Dr. Laan Mendes de Barros, explicando a relação do evento com suas bases epistemológicas dentro da área de concentração de pesquisa mantida pela faculdade, área esta que, inclusive, possui título homônimo ao presente seminário. Em seguida, o professor apresentou os palestrantes e enfatizou a importância da oportunidade de todos compartilharem das pesquisas desenvolvidas pelos acadêmicos vinculados à Instituição.

Terminada as apresentações, tomou a palavra o Prof. Dr. Walter Teixeira Lima Junior que apresentou o seu projeto de pesquisa de pós-doutorado pela Universidade Metodista de São Paulo, cujo título simplificado, como destacou o pesquisador, é “Bases conceituais visando a criação de UML (Unified Modeling Language) para pesquisa e validação qualitativa de fontes de informação jornalística”. Para aqueles que estranharam a sigla que aparece neste título, Teixeira Lima tratou logo de elucidar do que se trata, UML é um sistema que emula a escolha de fontes jornalísticas. Antes de entrar em maiores detalhes do que vem a ser este sistema, o professor se aprofundou pelos campos de estudo que englobam sua pesquisa que, além da Comunicação e do Jornalismo, envolve áreas ligadas à Tecnologia computacional e Cognição, sendo esta última, uma área de estudo que busca entender, nada mais, nada menos, que a mente humana.

O projeto em sua profundidade tecnológica – o que é possível perceber-se somente através de seu título – relaciona-se com a produção de uma interface, trata-se, a grosso modo, de uma tecnologia que envolve a inteligência de poderosos e gigantescos bancos de dados, os Datawarehouses , e a capacidade de relacionar a imensidão de dados desses bancos de forma inteligente, ou seja, um conceito tecnológico conhecido como por A.I., mas não aquela A.I. do famoso filme de Steven Spilberg (Artificial Intelligence), e sim no de Agentes Inteligentes, um conceito que envolve tecnologia de ponta na área de análise de dados. Os agentes inteligentes, dessa forma, estão dentro do campo de estudo que relaciona as tecnologias de inteligência computacional com a própria capacidade intelectual da mente humana, daí a importância dos estudos na área de cognição que alicerçam tal projeto. Não se trata de um sistema que possa “pensar” como nós humanos podemos, mas sim de um sistema capaz de relacionar dados e “aprender” com eles e, através dessa capacidade, ser hábil em trazer a tona dados valiosos para seus usuários, informações que vão além daquelas que inicialmente foram requisitadas e que enriquecem qualquer pesquisa ou levantamento de dados, que traz inteligência para a busca de informações, no caso desse projeto, voltado para informações relativas a fontes jornalísticas.

Alguém pode pensar “tudo isso apenas para a pesquisa de fontes jornalísticas?”, a resposta adequada para esta dúvida poderia ser sim e não. Toda essa tecnologia, toda essa inteligência, não se esgota no próprio projeto ou num único sistema, até porque não se trata de um único sistema, e sim da relação entre vários sistemas, tanto de armazenamento de dados, quanto de pesquisa dos mesmos. Tal complexidade vai além da tecnologia que será obtida quando da conclusão do projeto, uma vez concebida essa interface informativa, ela abrirá uma porta para diversas outras portas. A capacidade informativa gerada por essa específica interface poderá ser relacionada com outras diversas, de variados campos, inclusive o comunicacional, de onde partiríamos para novos patamares de inteligência associada ao armazenamento e pesquisa de dados, enriquecendo de forma imensurável o usufruto da tecnologia computacional (o que inclui as redes de computadores) que tanto tem auxiliado o Homem em todas suas áreas de atividade dentro da atualidade e que, neste caso, volta-se especificamente para a área do jornalismo.

Com a explanação do quem vem a ser esse sistema, Teixeira Lima passou a enfatizar os benefícios que ele trará para os jornalistas. Em primeiro lugar, será uma forma de ampliar o campo de pesquisa jornalística com uma tecnologia que vai muito adiante de sistemas como, por exemplo, o Google, de modo que muitos deixem para trás a “visão simplificada do mundo” que hoje comumente afeta o trabalho de muitos jornalistas. O avanço que trará esse sistema representará uma ampliação do conhecimento humano que, hoje, ainda esbarra em muitas limitações. Com relação as fontes jornalísticas, esse sistema tem como objetivo a tipificação de fontes de forma inteligente, assim será possível se saber qual a melhor fonte para falar de um determinado assunto. Objetiva-se dessa forma, aumentar a qualidade e a credibilidade do trabalho jornalístico e diminuir as “lamúrias” na relação entre jornalistas e fontes, não permitindo, por exemplo, a repetência contínua de uma mesma fonte. Teixeira Lima também explicou alguns aspectos da semântica de seu sistema e das instâncias que são levadas em conta nesse tipo de pesquisa, que vão desde análise curricular das fontes, sua importância e chegam em questões que afetam o dia-a-dia dos jornalistas, onde até a pressão e o stress são levados em conta. Na busca de fontes o mais isentas possível, o sistema procura relacionar uma série de informações, entre as quais temos cargo, formação, proximidade com os temas (economia, tecnologia etc), conhecimentos técnicos, enquadramento com linha editorial de determinado veículo comunicacional, natureza, prestigio, dados de contato e materiais produzidos (livros, matérias etc) e outras tantas que compõem uma longa lista.

Findada a palestra de Teixeira Lima, foi a vez do orientador do projeto, Prof. Dr. Sebastião Squirra5, argüir a respeito da importância do trabalho desenvolvido por seu orientando. Afirmou que “não é possível mais se entender a comunicação sem intermediação de bases tecnológicas”, e completou colocando que “o comunicador não pode sofrer de traumas pelas tecnologias, tem que saber lidar com essas novidades, esses aparatos”. E enfim, para enfatizar a importância desse projeto e chamar a atenção para a questão tecnológica e seus gadgets que, cada vez mais e mais, cercam o trabalho do comunicador, Squirra afirmou que “é difícil acompanhar a tecnologia, mas é preciso tentar estar o mais próximo possível, pois elas estão cada vez mais acessíveis e indispensáveis”. Tais palavras se encaixam perfeitamente com o a necessidade de desenvolvimento do sistema proposto por seu orientando e, com certeza, sendo esse concebido, tornar-se-á indispensável para o trabalho do jornalista num futuro bem próximo.

Algumas palavras de Sebastião Squirra

Em palestra acadêmica na Faculdade Cásper Líbero em São Paulo, 21 de maio de 2008, o Prof. Dr. Sebastião Squirra comentou sobre algumas questões da imprensa na atualidade. Suas afirmações foram duras, contundentes e nos remetem a crise por qual essa instituição atravessa. Squirra afirmou sem meias palavras que o modelo de jornalismo atual, institucionalizado e de bases sindicais, praticado por empresas como a Folha de S. Paulo e instituições de ensino como a ECA-USP, é algo que “já morreu”. Comentou que o jornalismo impresso no Brasil “é uma bobagem” e colocou que a “Folha pasteurizou o jornalismo”, hoje, não haveria mais diferença entre os jornais e as acessorias de imprensa e, com relação às fontes, deixou claro que apenas se compõem de “ricos e poderosos, o sistema estabelecido”, enfatizando que “é o sistema que pauta o jornal”. Ainda sobre a Folha, esclareceu que o novo projeto do jornal nada mais é do que uma cópia do USA Today, onde os jornalistas ficam apenas na redação sentados à frente do computador, o trabalho de reportagem é praticamente inexistente. Para finalizar, Squirra relacionou a sua crítica ao jornalismo atual com a importância do projeto de seu orientando, Prof. Dr. Walter Teixeira Lima Junior, esclarecendo que “o problema da pesquisa do Walter é tratar de tópicos empíricos e chegar num software que trabalhará com muitas variáveis de natureza não-controláveis”, o que se pôde entender como as peculiaridades do gênero humano e seu livre-arbítrio. Sobre o cenário atual do jornalismo, Squirra findou sua palestra colocando que “o novo jornalismo é o de autor”.


Palestras vespertinas

Na parte da tarde, o I Seminário de Comunicação na Contemporaneidade iniciou-se com a palestra da Profª Drª. Heloiza Matos que apresentou o tema “Capital social, engajamento cívico e TIC’s”. Para aquele que teve um tique nervoso ao se deparar com esta última sigla, vale esclarecer tratar-se de “Tecnologias da Informação e Comunicação”. Resumidamente, Matos apresentou seu presente objeto de estudo que procura analisar como as tecnologias da informação e comunicação, leia-se Internet, estão modificando as inter-relações entre as pessoas e suas ações na sociedade. O engajamento cívico é a questão em foco que busca entender como é o papel do cidadão, ou de conjuntos destes, e sua atuação nos dias atuais dentro da sociedade, o capital social seria uma forma de mensurar os benefícios que esses engajamentos trazem para a coletividade. Nesse contexto, a pesquisa de Matos volta-se para “buscar caminhos para uma compreensão mais clara da relação entre comunicação e capital social” (Matos: 2007, 57).

Durante a apresentação, a professora apresentou diversos conceitos, estudos e as diferentes abordagens relacionadas ao capital social. Destacou a obra Bowling Alone do pesquisador norte-americano Robert Putnam, como um marco para os estudos nessa área. Mencionou também, pesquisadores como Francis Fukuyama e Richard Sennet (que abordam questões do capital social relacionadas com conceitos de capitalismo flexível e cultura da confiança), cujas linhas de pesquisa embasam seu presente estudo.

Antes de se aprofundar em seus estudos, Matos esclareceu com maior exatidão o quem vem a ser o conceito de capital social através (1) daquele que originou tal estudo, o sociólogo Pierre Bordieu: “(...) o conjunto de recursos atuais e potenciais que estão ligados à posse de uma rede durável de relações mais ou menos institucionalizadas de interconhecimento e inter-reconhecimento” (MATOS: 2007, 58 apud Bordieu: 1980, 2); (2) da interpretação da estudiosa Sophie Pontieux em cima dos estudos de Bordieu:

Estar socialmente inserido no grupo significa, para o indivíduo, a busca de proveitos materiais e simbólicos e, entre os membros, implica na transformação das relações contingentes (vizinhança, trabalho, parentesco, necessárias e escolhidas), implicando obrigações duráveis subjetivamente acompanhadas de (sentimentos de reconhecimento, respeito, amizade) ou garantidas institucionalmente (Matos: 2007, 58 apud Pontieux: 2006, 46);

E, enfim, (3) complementando em cima dessas colocações que “além do atributo individual, o capital social é visto como componente de ação coletiva, ativando as redes sociais” (Matos: 2007, 58). Se o capital social ativa redes sociais e, pensando na Internet como uma rede que funciona dentro do conceito comunicacional de muitos para muitos, logo, questiona-se: a Internet não estaria se prestando a essa valorização do capital social? Parece claro que sendo a Internet uma grande rede que aproxima pessoas, e sendo a formação de redes um vetor de valoração do capital social, ela tem o potencial e estaria trazendo benefícios à coletividade que dela usufrui. Esta questão é algo que o estudo de Matos procura compreender de forma ampla.

Em seguida, Matos apresentou diversos outros nomes de estudiosos que vêm colaborando para a compreensão maior deste conceito, e suas importantes colocações sobre o tema, onde temos, por exemplo, James Coleman que distingue capital físico, humano e social, sendo que este último seria: “(...) constituído por três características: as obrigações e expectativas que ajudam a estruturar a confiança entre membros da rede; a capacidade da estrutura social para gerar e colocar em funcionamento os fluxos de informação; e as normas que regem o processo” (Matos: 2007, 59), e Alejandro Portes, que define capital social da seguinte forma: “Para possuir capital social, um indivíduo precisa se relacionar com outros, e são estes – não o próprio – a verdadeira fonte de seus benefícios” (Matos: 2007, 59 apud Portes: 2000, 139).

Uma vez entendido o que vem a ser capital social, Matos aponta para os objetivos que estão em jogo dentro deste campo de estudo que, dentro da concepção anglo-americana (que segue em grande parte a linha de estudo de Putnam), podem ser entendidos como:

(...) compreender como atores sociais e as instituições podem, partindo de interesses comuns, atingir objetivos comuns, por meio de ação conjunta qualitativamente diferente de uma simples agremiação quantitativa. E a condição essencial para que isto ocorra, é que o indivíduo pertença a uma comunidade civicamente engajada, participando em variadas redes de interação (Matos: 2007, 59).

Enfim, entre outros importantes estudos citados, Matos destaca um estudo de André Lemos, que baseia-se no conceito do capital social como um fator centrado dentro da coletividade e na inteligência que desta advém , que pode ser entendido como a somatória de quatro diferentes instâncias, os capitais, social, intelectual, cultural e técnico (Ver Matos: 2007, 59). Nesta última instância, técnica, a pesquisa de Matos busca compreender o papel da Internet como aparato técnico/ tecnológico na valorização do capital social.

Na questão que relaciona o capital social com a Internet, Matos aponta os estudos de Anabel Quan-Haase e Barry Wellman que propõem três diferentes formas de abordar essa relação, a primeira delas aponta para uma transformação positiva do capital social através da Internet:

(...) alguns fatores contribuem para que a internet ofereça um meio a mais de comunicação para comunidades com interesses comuns. Além dos baixos custos de aquisição-uso do computador e sua natureza assincrônica, a Internet conduz a uma transformação no contato social e no envolvimento cívico, permitindo agregar as redes sociais dispersas e a criar movimentos de solidariedades locais e grupais (Matos: 2007, 64).

A segunda abordagem parte do pressuposto que a Internet diminui o capital social: “com suas capacidades de informar e entreter, a Internet afasta as pessoas da família e os amigos. Ao facilitar a comunicação e o envolvimento global, a Internet tende a reduzir o interesse do internauta pelas questões próximas da vida pública e da comunidade local” (Matos: 2007, 64-65). Por fim, a terceira abordagem enfatiza que a Internet suplementa o capital social: “As pessoas usam a internet, o telefone fixo ou móvel o iphone e o contato pessoal, no entanto continuam mantendo seus hobbies e interesses políticos offline. Isso sugere que a Internet pode contribuir para ampliar os padrões existentes de contato social e de envolvimento cívico” (Matos: 2007, 65). Após essas explanações, Matos tratou de comentar alguns apontamentos verificados em seus estudos até o presente momento. Numa comparação entre TV e Internet, enfatizou que enquanto a primeira tem culpa na redução do capital social, onde a vocação para o entretenimento do meio seria responsável pela criação de uma visão mais cínica do mundo, a segunda, ao contrário, alia o indivíduo no engajamento físico coletivo, de interação social. A professora, embora não tenha afirmado de forma contundente, deixou transparecer a sua intuição positiva em relação à Internet como meio conscientizador e engajador. Nesse sentido, a grande questão que se coloca é saber se a Internet será veículo de entretenimento ou será vetor de engajamento físico. Os exemplos concretos do papel da Internet em relação a valorização do capital social ficaram a cargo do Professor Marcelo Coutinho Lima, cuja palestra teve curso em seqüência as palavras da Professora Heloiza Matos e da debatedora Margarida Gordinho.

O debate

A palestra vespertina do I Seminário de Comunicação na Contemporaneidade contou com a participação da Profª. Drª. Margarida Cintra Gordinho que explanou sobre o cenário e as iniciativas brasileiras de valorização do capital social. Cintra falou sobre alguns problemas sociais nacionais e suas relações governamentais desde a caminhada da nova era que até hoje perdura, e as tentativas de valorização do capital social dentro de um país cuja realidade é de grandes massas carentes. O fim da LBA (Legião Brasileira de Assistência) e a criação de novas ações independentes e não-governamentais, onde se destacam iniciativas de diversas ONGs, programas de combate ao analfabetismo e de inclusão digital, são exemplos de iniciativas que vêm modificando o cenário do capital social no Brasil. Gordinho explicou que os novos programas sociais estão abandonando uma visão paternalista, de origem estatal, para privilegiar iniciativas da própria sociedade civil através de diferentes formas de engajamento, esse novo paradigma estaria assim, valorizando o capital social no nosso país.

A Internet e o Capital Social

A palestra do Prof. Dr. Marcelo Oliveira Coutinho Lima , trouxe diversos exemplos da Internet como meio valorizador do capital social. Coutinho Lima colocou que a Internet, no início, seguia o padrão comunicacional de um para muitos, institucionalizado no decorrer dos últimos séculos pelos tradicionais veículos que compunham o mainstream media (TV, rádio e impressos). Hoje, entretanto, a Internet nos trouxe para o padrão muitos para muitos, e citou alguns exemplos de sites como Dig, Jost, a realidade virtual Second Life e os blogs. Comparou o fenômeno atual da Internet em relação às “velhas” mídias com o surgimento da prensa gráfica de Gutenberg que acabou com o “monopólio” ao conhecimento mantido pela Igreja durante a Idade das Trevas.

Coutinho Lima afirmou que apesar das dificuldades de medição de audiência na Internet, dado que as técnicas até hoje desenvolvidas, aplicáveis à mensura de audiência de meios estanques como os do mainstream media, são difíceis ou impossíveis de serem replicados no novo meio digital, em contrapartida, a Internet permite mensurar confiança, reciprocidade e outros elementos que compõem o capital social. Discorreu sobre os números da Internet no Brasil, onde temos uma base de usuários maior que a população de países inteiros como Argentina e Espanha, apesar de contarmos apenas com inclusão de cerca de 20% de nossa população no novo ambiente. As classes C e D são as que mais têm contribuído para o aumento de usuários no Brasil, onde as Lan Houses correspondem a 50% do acesso ao mundo das redes computacionais e, aliado a esse dado, está outro que aponta o brasileiro como principal usuário doméstico da Internet, com o maior número de horas conectado à rede a partir de casa. O dado mais relevante, porém, que demonstra a valorização do capital social no Brasil através da Internet, mostra que o país tem o maior percentual no acesso a comunidades virtuais, fato atribuído ao povo daqui ser mais caliente, países cujos povos são considerados “frios”, como a Alemanha, são os que possuem menor percentual. Todos esses números explicitam o fato da Internet no Brasil já ser um meio comunicacional com forte peso de atuação dentro da sociedade, sendo assim, pipocam pela grande rede, diversas iniciativas que demonstram como ela vem colaborando para a valorização do capital social. Sobre alguns desses exemplos atuais foi o que discorreu Coutinho Lima no desenrolar de sua palestra.

O primeiro grande exemplo de como, tanto a Internet quanto outros novos aparatos tecnológicos, vêm alterando a relação das pessoas na sociedade e, em especial, com a mídia, sendo que, isto demonstra uma valorização do capital social – já que as pessoas agora têm novas formas de se relacionar e se informar, com novas alternativas de chegar à e irradiar a informação está no famoso caso dos bandidos do PCC (Primeiro Comando da Capital) – isso mesmo, o que antes era piada de estória em quadrinhos , agora é realidade, crime organizado tem sigla, se organiza como instituição partidária e, mais, tem acesso à mídia eletrônica e digital. Coutinho Lima destacou o simples fato que, na ocasião do “toque de recolher” que parou a cidade de São Paulo em 2006, as pessoas deixaram as ruas pois confiaram mais na informação que perambulou pela mídia digital do que nos informes oficiais veiculados pelo mainstream media. Trata-se de um exemplo de como a nova mídia tem mais confiabilidade do que se imagina e, sendo assim, pode ser um forte vetor de valorização do capital social como já vem sendo em diferentes graus.

Outro exemplo que pode ser relacionado à valorização do capital social através da Internet, e que pode ser também relacionado com a pesquisa do Prof. Dr. Walter Teixeira Lima Junior – que palestrara momentos antes chamando atenção para as “lamúrias” do processo jornalístico de pesquisa de fontes – está na colocação de Coutinho Lima onde “o custo de uma segunda opinião no broadcast é caro, na web, é zero, é um clique”. E exemplificou esta colocação citando a dificuldade que os médicos têm hoje em dia ao lidar com seus pacientes “bem informados”, pacientes que não mais aceitam passivamente as recomendações de um único médico, pois têm, tanto acesso a informações médicas, quanto a opinião de outros médicos dentro do novo mundo midiático inter-conectado guiado pelo paradigma comunicacional de muitos para muitos erguido pela grande rede e as tecnologias de inteligência binária.

Para finalizar, Coutinho Lima enfatizou que, se a Internet – um ambiente que permite a valoração do capital social – está mudando a maneira como as pessoas buscam seus formadores de opinião, ela representa, numa amplitude maior, uma “reconfiguração dos meios comunicacionais”. E, para nós finalizarmos, só resta-nos corroborar estas idéias, pois cremos que, quando cita-se a Internet como revolucionária, entendemos que revolução é isso, é a passagem de um estado instituído para outro com características evolutivas, com maior positividade, benefício coletivo e, inclusive, democratizado (embora possam existir diversos exemplos que nos levem ao oposto, ao retrocesso). Seguindo essa linha de reflexão e, entendendo o que vem a ser e os exemplos citados de valorização do capital social, expõe-se o fato da Internet estar modificando todo o cenário midiático até então institucionalizado, principalmente no que tange o acesso à informação e a capacidade conectiva dos indivíduos em rede, sendo assim, muito se precisa estudar a respeito dessa nova e revolucionária mídia dentro da contemporaneidade.

Considerações Finais

As palestras do I Seminário de Comunicação na Contemporaneidade foram muito positivas para uma melhor compreensão do papel da comunicação e do comunicador no palco da atualidade midiática. Fica evidente que estudar a comunicação em seu contexto atual significa estudar e buscar a compreensão do novo meio midiático composto pela Internet, as diversas tecnologias e aparatos binários que hoje compõem essa nova e extensa rede comunicacional. Os dois temas debatidos nesta jornada foram grandes exemplos desta necessidade, por um lado uma pesquisa que busca engrandecer o trabalho jornalístico através do uso dessas tecnologias, por outro, uma pesquisa que busca entender como essas tecnologias estão beneficiando a coletividade através de novas associações que valorizam o capital social. Entre as duas pesquisas, uma certeza: tem algo novo no ar, ou seria melhor dizer, tem algo novo na rede? Sobre a nossa proposta colocada na introdução desse texto, podemos dizer que as palestras, os nossos estudos e as reflexões acima descritas foram muito úteis para o percurso rumo à conclusão de nossa pesquisa dissertativa. Com certeza, algumas das palavras acima colocadas também estarão presentes no estudo que estamos desenvolvendo. Sendo assim, a participação neste seminário só veio enriquecer a nossa caminhada dentro do desafio que é pleitear a condição de mestre.


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