Relatório de Banca - O Jornal Nacional e as Eleições Presidenciais de 2002 e 2006 - Florentina das Neves
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FACULDADE CÁSPER LÍBERO Coordenadoria de Pesquisa e Pós-Graduação Programa de Pós-Graduação Stricto Sensu em Comunicação Mídia, Poder e Ética – Prof. Dr. Laurindo Leal Filho Defesa de Tese: “O Jornal Nacional e as Eleições Presidenciais de 2002 e 2006” Aluna: Florentina das Neves de Souza Pedro Luiz de Oliveira Costa Bisneto R.A: 07000797 pbisneto@uol.com.br
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Dados Gerais
Defesa de Banca – Doutorado / Universidade de São Paulo Doutoranda: Florentina das Neves de Souza / flora@uel.br Tema: “O Jornal Nacional e as Eleições Presidenciais de 2002 e 2006” Data: Sexta-feira, 31 de Agosto de 2007 / Horário: 14:00hs Local: Sala de Defesa de Teses – ECA/USP – São Paulo-SP
Banca Examinadora
- Prof. Dr. Laurindo Leal Filho (Orientador – ECA/USP)
- Prof. Drª. Vera Chaia (PUC-SP)
- Profª. Drª. Ivete Roldão (PUC-Campinas)
- Prof Dr. Adilson Citelli (ECA/USP)
- Prof. Dr. Luís Fernando Santoro (ECA/USP)
Exposição da Tese
A apresentação do trabalho foi feita em PowerPoint e com a exibição de alguns vídeos, matérias do jornal televisivo mais conhecido do país, o Jornal Nacional – ou simplesmente, JN. A tese da aluna demonstrou que o jornal em questão teve um discurso tendencioso na cobertura jornalística das eleições presidenciais de 2002 e 2006, discurso esse que, assim como em 1989, tinha o objetivo de favorecer os adversários de Lula – Luís Inácio Lula da Silva, atual Presidente do Brasil – nas corridas presidenciais mencionadas.
A doutoranda Florentina iniciou sua apresentação contextualizando sua pesquisa como fruto dos anos que trabalhou na redação do JN, onde observou algumas rotinas que não a agradavam, estes fatos foram o pontapé inicial que alavancou a sua tese de doutorado. Esses fatos se referiam às pautas conduzidas pela direção e o modo como esta eram impostas, a interferência na produção e no texto dos repórteres e interferências na edição de matérias. Para exemplificar essas interferências, Florentina comenta um caso que vivenciou uma vez nas redações do JN. Willian Bonner, redator-chefe do jornal, havia vetado uma matéria de uma repórter sobre os “sem terra”, pois queria que texto original da reportagem, onde a repórter se referia aos “sem terra” como “ocupantes”, constasse o termo “invasores”. Com a recusa da repórter em alterar o texto, a matéria foi reeditada por ordem de Bonner e o áudio original sobreposto com um novo onde aparecia a palavra “invasores”. Além disso, Florentina queria saber como se dá a produção e a escolhas das pautas na construção da linha editorial do JN.
Sobre os fatos específicos de sua tese, se o JN de fato teve pesos e medidas diferentes no tratamento dos principais candidatos à presidência da República em 2002 e 2006, Florentina foi pontual em afirmar através de diversas análises contidas em suas pesquisas, o que incluiu horas e horas de gravações e análises de matérias e notícias do JN, utilizando-se inclusive de algumas delas durante a sua apresentação, que de fato sim, houve parcialidade do JN, e exemplificou isso com os fatos narrados a seguir.
Em 2002, o JN favoreceu o candidato do PSDB José Serra, adotando o discurso do tucano sob a abordagem econômica de que o “Brasil vai virar Argentina” (que naquela época vivia forte crise econômica). À medida que um candidato subia na pesquisas, ameaçando a posição de Serra e apontando para uma possível vitória de Lula ainda no primeiro turno, o JN passava a veicular matérias desfavoráveis a tal candidato. Como aconteceu com Ciro Gomes, onde o JN destacou algumas alianças de sua candidatura com políticos de imagem duvidosa, com ligações com parentes de Paulo César Farias e o próprio ex-presidente Fernando Collor de Melo.
Em 2006, Florentina demonstrou que o JN veiculou diversas matérias desfavoráveis à Lula, sendo as de maior destaque, a série de reportagens sobre o famoso caso do “dossiê anti-Alckimin”, que atrelava Lula a um complô da venda de um falso dossiê com informações prejudiciais ao candidato tucano, o conteúdo desse dossiê, no entanto, era obscuro e foi pouco ou praticamente não reportado pelo jornal.
A conclusão da pesquisa de Florentina determinou que, tanto em 2002, quanto em 2006, o tratamento quantitativo na cobertura jornalística dos candidatos à presidência da República foi equilibrado, mas o qualitativo não. Florentina demonstrou que o JN continua construindo “personagens” em cima dos candidatos de acordo com a sua linha-editorial.
Comentários da Banca Examinadora
As exposições da Banca Examinadora se iniciaram com as argüições da Professora Vera Chaia da PUC-SP, que fez quatro questionamentos básicos sobre a tese de Florentina:
a) Como avaliar a cobertura negativa sobre o Lula e as crises apontadas pelo JN em função do resultado das eleições (vitória de Lula)? b) Qual a linha editorial do JN? Ela não muda conforme os interesses, ou o JN só quer polemizar mesmo e assim desqualifica alguns candidatos? c) Perguntou a respeito de uma entrevista que consta na tese com Rodrigo Vianna, ex-funcionário de Willian Bonner, demitido da Globo, e porque ele teria se voltado contra a Globo após sua saída do JN? d) Porque o JN foi complacente com a Heloísa Helena da Silva?
Além dessas questões, Vera disse que faltou um embasamento teórico mais forte ao trabalho, criticou alguns itens tais como uma abordagem da aluna sobre o Jânio Quadros e complementou que faltou um pouco de leitura crítica sobre os depoimentos de seus entrevistados, dando a crer que confiou demais nas informações levantadas por esses, elogiou entretanto, as transcrições das entrevistas.
Florentina respondeu às argüições de Vera justificando que algumas entrevistas que aparecem em sua tese foram feitas em um estudo preliminar sobre o assunto durante a sua dissertação de mestrado, daí a falta de análise. Sobre as questões (a) e (b), disse que no momento do “espelho” do JN, é Bonner quem faz o gatekeeper junto com Ali Khamel da editoria econômica, mas a última palavra é sempre de Bonner. Na Internet os textos são alterados e não correspondem aos originais do JN e tal prática seria um exemplo de como o JN esconde parte de seu discurso ideológico. Florentina enfatizou que Bonner hoje se preocupa mais com o Big Brother Brasil do que com o próprio JN. A questão (c), sobre Vianna, Florentina contou que ele recusou-se a assinar um abaixo-assinado onde diversos jornalistas atestavam a isenção do JN na cobertura do caso da empresa aérea GOL, e por isso Bonner o demitiu sumariamente.
A segunda a argüir foi a Professora Ivete Roldão, da PUC-Campinas, que elogiou bastante a tese, considerando-a como um bom o trabalho, um texto gostoso de se ler, prazeroso e atual. A tese demonstrou “como” o JN faz as coisas (a parcialidade) que todos sabem que ele faz. O problema das entrevistas feitas por Florentina, que não constam na metodologia de pesquisa e no fim adquirem grande peso no trabalho – a utilização exagerada de Rodrigo Vianna – foi criticada por Ivete. No caso de Vianna, que havia acabado de deixar a Globo, faltou ouvir o outro lado, Bonner. A Professora Ivete, de um modo geral, concordou com as questões levantadas na tese de Florentina, onde o JN assume mesmo esse papel de desqualificar candidatos (tais como Rosiane Sarney, Heloísa Helena da Silva e Ciro Gomes) e ainda favorecer outros. Mesmo assim, apesar de toda a análise mostrada na tese de Florentina, Ivete perguntou se o JN não teria sido “brando” com Lula, afinal este, durante seu primeiro mandato, foi solicito na política da área da radiotransmissão, com a ABERT e a própria Globocabo. Para encerrar, elogiou bastante a análise de Florentina sobre o candidato Geraldo Alckimin e a construção positivista de sua imagem pelo JN.
Sobre as argüições da Professora Ivete, Florentina fez algumas colocações pertinentes. Começou explicando que é muito forte a alcance da Globo e do JN no interior do Brasil, onde o telejornal é praticamente a única fonte de informação disponível e, nesse sentido, a Globo tenta mesmo utilizar a sua força na construção da opinião pública. Segundo Florentina, a Globo “abrandou” com Lula em 2006, assim como “cortejou” Alckimin, com o intuito óbvio de manter suas parcerias e quotas de propaganda governamental. No caso de Heloísa Helena, enfatizou que a postura do JN foi de buscar inconsistências na proposta de governo da candidata, explorá-las e cobrar isso dela, desfavorecendo-a. O JN simplesmente não teve a menor complacência com a candidata. Em relação à entrevista com Vianna, Florentina disse que Bonner se negou a dar declarações sobre as colocações do ex-funcionário.
Após um breve intervalo, as argüições voltaram com a palavra do Professor Adilson Citelli da ECA/USP. Dirigindo-se à doutoranda de forma veemente, Adilson perguntou: Qual é a sua tese afinal? E complementou questionando se de fato o JN favoreceu ou não algum candidato? Afinal Lula vencera os adversários que teriam sido favorecidos pelo JN. Em seguida, Adilson questionou os núcleos organizativos do trabalho: no primeiro, histórico, identificou uma diacronia, achou-o muito panorâmico e ao mesmo tempo muito resumido. No segundo núcleo do trabalho, o da pesquisa de dados e entrevistas, disse que faltou análise qualitativa em relações teóricas e conceituais de forma a expandir mais a reflexão sobre os dados levantados, a análise feita foi insuficiente frente à quantidade de dados levantados. E exemplificou: faltou indicar algumas fontes e autores, faltou o embasamento e o uso da análise do discurso[1] nas entrevistas, onde mencionou o caso de Bonner em relação aos “invasores” sem-terra[2]. Adilson classificou tal núcleo do trabalho como uma “incompletude de informações”.
Adilson ainda comentou o caso da candidata Heloísa Helena da Silva, onde colocou que a Globo haveria tangenciado a candidata para enfraquecer Lula e levá-lo para a disputa do segundo turno. Finalizou dizendo que, em sua opinião, o trabalho não responde se de fato a “Globo detonou o Lula ou não” e ainda questionou como teria sido a abordagem dos candidatos em outras emissoras.
A aluna Florentina respondeu à Adilson colocando que o seu trabalho não teve muito aprofundamento na lingüística pois este não é o seu “forte”: a análise do discurso, seu trabalho foi mais empírico, de pesquisa de campo. Sobre o texto e as colocações, deu ênfase a sua formação jornalística, e a diversas observações feitas durante sua carreira, daí algumas “gafes” em seu trabalho (como o caso da novela “O Patriota” da Globo que aparece na tese e foi criticada por Adilson), em função disso, algumas vezes o trabalho acabou saindo das abordagens metodológicas. Nessa linha, Florentina justificou outros questionamentos políticos levantados por Adilson, tais como as eleições de Orestes Quércia em 74. A visão qualitativa, segundo ela, apresenta duplicidade de sentidos devido a própria duplicidade das amostras, muitas vezes, contraditórias. Enfatizou que não se propôs a fazer análise do discurso em seu trabalho pois não tem formação em lingüística.
Quanto ao primeiro núcleo do trabalho, este foi resumido em função do material que possuía ser muito amplo, daí a “diacronia” apontada por Adilson. E, sobre a veemente questão colocada a respeito de sua tese, Florentina afirmou que “o JN tem papel fundamental influenciando as eleições”.
As examinações da banca finalizaram após as argüições do Professor Luís Fernando Santoro da ECA/USP, que gostou muito do trabalho e colocou ênfase na visão jornalística da aluna como uma profissional de telejornalismo. Elogiou a metodologia do trabalho dado os fins do estudo. Discordou um pouco da tese proposta no trabalho: como o JN teria papel decisivo e pontual no pleito eleitoral que, na sua visão, sofre várias variáveis? Florentina então, teria valorizado demais o próprio JN, enquanto deveria levar em conta também, dados sobre a opinião pública. Para Luís Fernando , é impossível determinar o papel do JN na influência das eleições, somente a sua abordagem e o seu posicionamento. Enfatizou que é preciso analisar a repercussão das abordagens do JN. Segundo a leitura do trabalho, Florentina demonstra que “acha um absurdo o JN tomar partido das coisas”, mas isso é prática no jornalismo como um todo, Luís Fernando inclusive, mencionou que a frase “o jornalista tem o dever de ser imparcial” é algo que não desce à garganta.
O Professor Luís Fernando terminou suas considerações tecendo algumas criticas, disse que o texto é um pouco impreciso, a aluna poderia ter incluído estudos de credibilidade da TV que hoje são comuns, ao invés de apenas dados de penetração como utilizou. Também criticou um pouco o referencial teórico da tese, mas elogiou a metodologia. Terminou dizendo que o trabalho não chega a uma conclusão e perguntou: a Globo determina o apoio ao candidato? Ou segue as tendências de pesquisas e outras mídias?
Florentina centrou suas respostas às colocações levantadas por Luís Fernando na questão do entretenimento que sitia o jornalismo atualmente e também, numa das questões centrais da sua tese, a linha editorial do JN. O JN se coloca como imparcial, cumpre determinações do STE (como na questão do tempo dedicado à cobertura de cada candidato no jornal, que por lei, deve ser o mesmo para cada um), não assume uma posição de forma oficial, mas, na prática, sempre tende para um lado. A própria questão das fontes utilizadas pelo jornal, segundo Florentina coloca em sua pesquisa, não é feita de maneira adequada e se demonstra na prática como um instrumento que favorece a construção da ideologia e da linha editorial do JN. Nesse processo, o JN passa a ser tratado como um veículo de entretenimento – quando não deveria, enfatizou Florentina – utilizando-se do sensacionalismo e a criação de matérias “fabricadas”.
Por fim, o Professor Laurindo Leal da ECA/USP, orientador de Florentina, encerrou os trabalhos da banca examinadora e fez algumas colocações em cima da tese de sua orientanda. Colocou que a aluna trabalhou com um objeto em movimento, levantou um material riquíssimo. Fez um trabalho relacionado à sua vivência, o que as vezes acaba levando à uma análise passional do objeto, o “vicio” de uma prática profissional jornalística que se reflete nesse estudo acadêmico de três anos. O trabalho escrito é como uma grande reportagem de uma experiente jornalista.
Laurindo refutou algumas colocações dos membros da banca, enfatizou o papel da imprensa como o “quarto poder” e como as empresas de mídia realmente seguem seus próprios interesses na condução de seus veículos. Nesse sentido, o trabalho tem uma relevância histórica indiscutível. Enfatizou que a busca metodológica do trabalho foi mérito da orientanda, uma parte de dificuldade durante a pesquisa. Enfim, o trabalho refutou a crença de que o JN hoje não tem mais parcialidade, que ele haveria reconstruído a sua idoneidade a partir das farsas de 1984 e 1989. Essa é uma tese que, como demonstrou Florentina, ficou provada com o seu estudo.
Após essas palavras, todos se retiraram do recinto para que a banca pudesse analisar o trabalho e chegar ao veredicto final, a sua aprovação.
Deliberações
Com toda platéia e a doutoranda fora do recinto, a banca examinadora deliberou por cerca de dez minutos e conclui as examinações aprovando o trabalho com as ressalvas levantadas. Foi a conclusão esperada para a felicidade de todos no recinto, em especial da, enfim, Doutora Florentina das Neves.
Comentários Pessoais
A apresentação da tese de Florentina das Neves foi muito boa, muito bem explicada e ilustrada, o assunto de sua tese foi deveras interessante e pertinente, além de ser controverso e polêmico. O seu objeto de estudo, o Jornal Nacional, é particularmente instigante, pois já vem sendo alvo de outros estudos no âmbito do curso de Mestrado da Facasper e, no meu caso, englobou discussões que haviam sido debatidas em aula do Professor Marcelo Coutinho[3], onde estudamos o JN em diversos casos, como na fraude eleitoral envolvendo Leonel Brizola no Rio de Janeiro, o caso das greves sindicais no ABC, a cobertura da Diretas Já, e a própria eleição de Fernando Collor. O assunto da tese de Florentina então, é como uma própria extensão e aprofundamento desses estudos cujas fontes estão nas referências deste relatório, é também a sua atualização dentro do contexto mais contemporâneo das recentes eleições presidenciais.
Quanto às argüições da banca examinadora, foi muito interessante o debate como um todo, a questão política envolvida, a visão de cada membro e as respostas da doutoranda. Ficou claro que apesar das diversas considerações, o trabalho teve mais méritos do que objeções. Mais que uma banca de doutorado, a participação neste evento foi sem dúvida muito esclarecedora e interessante, principalmente devido a seu foco nos assuntos abordados no âmbito jornalístico das coberturas destes importantes eventos das sociedades democráticas que são as eleições.
Assistir a banca de doutorado de Florentina limpou a imagem que tal tipo de evento seja “longo e cansativo”, ao contrário, foi muito tranqüilo e de fácil engajamento, o assunto ainda poderia render mais horas e horas de debate. Imagino que, assim como eu, outros membros da platéia ficaram tentados a fazer comentários sobre o assunto durante a banca. Enfim, foi muito proveitoso e tenho certeza de que a tese de Florentina das Neves poderá virar um excelente livro que, com certeza, leremos.
Entrevista
Após o término da banca e a aprovação da aluna, tive o prazer e a honra de ter uma breve conversa com a Doutora Florentina. Como eu comentei no tópico anterior, o Jornal Nacional, assim como a Rede Globo e a figura de Roberto Marinho, foram objetos de estudo em outras ocasiões no decorrer deste curso de mestrado. Dessa forma, coloquei algumas questões pertinentes a esses assuntos para a Doutora que trouxe valiosas informações. Florentina concorda que não houve mudanças na postura do JN em relação aos estudos que fez nas duas últimas eleições presidenciais e a eleição que favoreceu Fernando Collor em 1989, e ainda disse que a situação agora seria mais grave e perceptível pois aquela manipulação só veio à tona muito tempo depois.
Lembramos que na eleição de 1989 a questão da escolha do candidato apoiado pela Globo, e a conseqüente construção da linha editorial da emissora, seguiam a vontade pessoal de Roberto Marinho. Marinho, de certa forma, assumia o poder que tinha e dizia que nunca hesitaria em usá-lo em prol de questões que, no seu entender, eram de interesse da nação brasileira. Perguntamos a Florentina como seria então, a escolha de um candidato pela Globo, após a morte de Marinho, se existia um “chefe maior”, quem seria? Florentina colocou que hoje não existe mais uma figura central, uma referência como era a figura de Roberto Marinho, existem os herdeiros sim, mas ninguém que detenha unicamente o poder na construção da linha editorial da Globo, incluindo o próprio JN, hoje isto estaria mais pluralizado. Porém, ao contrário da época em que podíamos atribuir o pensamento “ideológico” da Globo à Roberto Marinho, hoje isto estaria mais pluralizado e escondido, transparecendo neutralidade. No caso específico do JN, fica claro que Willian Bonner tem papel decisivo na construção da linha editorial do jornal, mas seu papel seria então, parecido com o de Alberico Souza Cruz em 1989 – o capataz de Marinho no JN – hoje porém, Bonner se reportaria à uma cúpula e não apenas ao “dono” como fazia Alberico. É essa cúpula que então, determinaria a linha editorial das Organizações Globo. Isso foi algo que em parte ficou demonstrado pela tese de Florentina e as reflexões que dela se implicam.
A conclusão que chegamos é que pouca coisa mudou no posicionamento da Globo em relação à Sociedade desde 1989. A Globo continua então, a utilizar a sua concessão de radiotransmissão pública em prol de seus próprios interesses privados, como foi o caso demonstrado pela tese de Florentina Neves.
Pós-Banca
A banca de doutorado de Florentina das Neves voltou a ser assunto duas semanas após a sua realização, em aula do Professor Laurindo Leal. Como orientador de Florentina, Laurindo chamou atenção para algumas questões levantadas pela banca e a pesquisa que nós, seus pupilos e mestrandos, teremos que empreitar.
Laurindo chamou atenção de duas coisas, a relevância da pesquisa, onde o ideal é que uma tese ou dissertação possa virar uma publicação, ou mesmo fomentar outros estudos e ser útil e/ou aplicável para a sociedade, neste ponto todos concordaram que a tese de Florentina dará mesmo um bom livro. Chamou atenção também para as fases da pesquisa: hipótese, revisão da literatura, coleta de dados, análise e interpretação. Dentre essas fases, a coleta de dados seria o filet mignon da pesquisa. A importância da literatura (Estado da Arte) está no fato dela apontar para quais dados serão necessários para a pesquisa. O cuidado da pesquisa deve estar na análise qualitativa dos dados, que é uma faca de dois gumes, ao mesmo tempo que é importante, é perigosa, deve ser usada com muita “parcimônia”. No caso de Florentina, uma análise qualitativa dos dados levantados, as entrevistas, foi cobrada a “análise do discurso”, que requeria todo um referencial teórico da Lingüística, um terreno que sai do saber exclusivamente comunicacional, daí tornar-se “perigoso”, um terreno que Florentina não explorou e foi cobrada por isso, focou a sua análise de dados de forma quantitativa. Por outro lado, Florentina fez um discurso crítico em cima de seus dados mesmo sem o embasamento teórico lingüístico, como foi apontado pela banca inclusive, daí o cuidado que se deve ter, a parcimônia necessária para analisar os dados de uma pesquisa, pois como bem colocou o Professor Laurindo, “não se faz ciência sem crítica, sem duvidar”.
Outras pontos debatidos nesta ocasião foram as questões políticas do objeto de estudo de Florentina, suas implicações em relação ao poder público, o mal uso de concessões públicas, o “quarto poder”. Assuntos de relevância dentro do contexto do debate maior que envolve mídia, poder e ética.
Referências
CONTI, Mario Sergio. Notícias do Planalto – A Imprensa e Fernando Collor. São Paulo: Cia das Letras, 1999.
LIMA, Venício A. Mídia, Teoria e Política. São Paulo: Perseu Abramo, 2004.
Filmes e Documentários
50 Anos de Brasil – Não verás país nenhum como este. Dir. Cruz, Selma Santa, Mello e Sérgio Motta. Bank of Boston: São Paulo, 2000.
Jornalismo Sitiado. Curadores: Eugênio Bucci e Sidnei Basile. Ed. LogOn: São Paulo, 2007.
O Brasil muito além do Cidadão Kane. Dir. Simon Hartog. Canal 4 – BBC: Londres, 1993.
Notas
[1] Essas afirmações contrariaram o que havia dito a Professora Ivete Goldon, onde na prática, a doutoranda havia de fato feito análise do discurso, mesmo sem apontar referenciais teóricos. N. do A.
[2] Ver "Exposição da tese", parágrafo 2.
[3] Na disciplina “Mídia, Política e Opinião Pública”, cursada no 1º semestre de 2007. As eleições e o impeachment de Fernando Collor também foram objeto de um seminário de aula proposto por este relator.N. do A.
